30 de dezembro de 2008

Muito prazer, piropo

Antes de qualquer coisa, uma rápida consulta ao Houaiss:

Piropo: expressão amável ou lisonjeira dirigida a outro; galanteio.

Há também um segundo significado na língua portuguesa para a palavra, referente a um tipo de minério, que por ora não interessa em nada. Voltemos ao piropo em sua forma romântica, galanteadora... e também ao motivo desse post.

O sétimo DVD da série que tem Chico Buarque como protagonista é chamado de "Romance". Para quem não viu nenhum episódio, em cada um deles trata-se de algum tema que se relaciona com sua obra. Neste, Chico fala de canções de amor.

Em dado momento, após lembrar das várias formas de se cantar o amor ao longo da história, Chico fala da dificuldade, até dado ponto de sua carreira, em criar canções ao estilo "piropo". E começa a falar empolgado sobre essa vertente.

Chico lamenta que o termo é pouco usado no Brasil, apesar de constar no dicionário. Ele diz que na Espanha é muito comum e dá uma série de exemplos de piropos clássicos, que o influenciaram em maior ou menor grau.

Para Chico, Robertão é o rei do piropo no Brasil, apesar de considerar que ninguém na música fez versos mais belos com essa característica do que Vinicius. E cita:


Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ter
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer

Para, em seguida, lembrar outro grande piropo:


Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Cita um clássico da língua espanhola, feito por Consuelo Velásquez, em 1940, antes da moça completar 16 anos!!


Bésame, bésame mucho
Como si fuera esta la nochela última vez
Bésame, bésame mucho
que tengo miedo a perderte
perderte después

E, por fim, cita "Every time we say goodbye", de Cole Porter, como um grande piropo e diz que se trata da canção de amor que mais admira no mundo. Se o homem diz, eis a letra e uma versão cantada por dona Fitzgerald da dita-cuja:

Every time we say goodbye
I die a little
Every time we say goodbye
I wonder why a little
Why the Gods above me
Who must be in the know
Think so little of me
They allow you to go

When you're near
there's such an air
of Spring about it
I can hear a lark somewhere
begin to sing about it
Theres no love song finer
But how strange the change
From major to minor
Every time we say goodbye


28 de dezembro de 2008

Ah, Buenos Aires...

Mensagem no MSN de minha amiga Tatoca, direto da capital argentina:

"Recado rapidinho, moço, pq estou no computador do hostel: estou apaixonada por essa cidade, posso passar o resto da vida comendo bifes de chorizo, sorvete de doce de leite, empanada e vinho, comprei três mil coisas da mafalda e achei sua camiseta."

Saudades de lá... e ela nem falou das argentinas (ou dos argentinos, no caso dela). A camiseta em questão tem uma estampa do grande Homer Simpson com a 10 da Argentina fazendo o gol da "mano de Díos", contra a Inglaterra, na seminal da Copa de 1986. Que ela volte logo e traga alfajores...

27 de dezembro de 2008

Direto ao ponto

“Ninguém mais se lembra de Deus no Natal.” Assim Gabriel García Márquez iniciava, no Natal de 1980, um célebre artigo publicado no jornal espanhol El Pais. Segundo o escritor colombiano — que dois anos depois receberia o Prêmio Nobel de Literatura —, há tanto barulho e tantas angústias de dinheiro que “a gente se pergunta se sobra tempo para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável”.

Vale ler a íntegra:

Estas sinistras festas de Natal

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos — quase 1 bilhão deles, portanto — acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

''Desilusão''

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos — como acontece na Espanha, com toda razão —, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia — como diziam os professores jesuítas na escola primária —, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

A má influência americana

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes 15 dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tiros no Natal

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.
Não é raro, como aconteceu freqüentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças — vendo tantas coisas atrozes — terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.

26 de dezembro de 2008

Praianas

Oxalá
Após duas rápidas passagens por Ilha Bela em novembro e dezembro, está confirmado: a mulherada anda abusando no tomara-que-caia.

???
Andando pela praia do Curral, uma cena assusta: parte da areia foi tomada pelas instalações do DPNY Beach Hotel. Além das esteiras, guarda-sóis e do atendimento VIP de uns 15 garçons, foi montado um tipo de tenda de luxo, ao estilo 1001 Noites, com uma puta cama king size, baldes de gelo e champagne, frigobar e decoração de luxo. Sim... com vista para o mar. E à vista de todos. Para quê?

Curioso, fui ao Google...
... e achei o site do tal hotel. Melhor do que qualquer comentário, é copiar aqui a tabela de preços para o ano novo.

CASAL CAMA EXTRA

SUÍTE 5 ESTRELAS BEACH
R$ 7.964,00 R$ 3.982,00
SUÍTE MASTER BEACH
R$ 13.340,00 R$ 6.670,00
SUÍTE BANGALÔ BEACH
R$ 16.008,00 R$ 8.004,00
BANGALÔ PISCINA BEACH
R$ 24.012,00 R$ 12.006,00
SUÍTE PRESIDENCIAL
R$ 28.174,00 R$ 14.087,00
SUÍTE IMPERIAL
R$ 36.626,20 R$ 18.313,10

Eu li direito?
36 mil pacotes pra passar 5 dias em Ilha Bela? Mais 18 mil se for levar um filho, por exemplo? Que tal ir para o Nordeste? Ou juntar mais um troco e ir para o Caribe?

21 de dezembro de 2008

Os instintos da perfeição

Além do tradicional chavão de “que seja eterno enquanto dure”, muito se fala a respeito da necessidade que Vinicius de Moraes tinha de estar sempre apaixonado, como se esse sentimento fosse um tipo de combustível a alimentar seu corpo e sua alma.

Sempre achei essa característica do poeta um tanto quanto invejável — exceto pela parte dos nove casamentos ostentados em seu currículo. Escrevo isso porque há tempos não assistia, escutava ou lia algum tipo de manifestação com essa temática que realmente me fizesse matutar um pouco sobre esse assunto. Pois li (ou melhor, reli, mas foi como se tivesse lido pela primeira vez) há poucos minutos. E compartilho abaixo:

“Contemplando a gravura cor-de-rosa, senti de sopetão que tinha mais alguém na saleta, virei. Maria estava na porta, olhando para mim, se rindo, toda vestida de preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu já tive a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida, fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido”.

[...]

“Porém, não havia dúvida: Maria despertava em mim os instintos da perfeição”.

Em tempo: os trechos são de “Vestida de Preto”, um dos nove “Contos Novos”, obra de Mário de Andrade que todo mundo leu ou deveria ter lido durante o colégio ou cursinho.

18 de dezembro de 2008

A notícia do dia

Celebridades não poderão mais dizer em propagandas que utilizam determinado medicamento e sugeri-lo ao leitor ou telespectador. A norma está em resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que passa a valer daqui a 180 dias no país.

O texto contém uma série de novas restrições, que abarcam também a distribuição de brindes e o pagamento de passagens a médicos por laboratórios, a oferta de amostras grátis e a linguagem da publicidade.

Se não violarem as restrições impostas pelo texto da Anvisa, artistas e jogadores de futebol poderão aparecer na propaganda, mas terão que ler também advertências a respeito dos medicamentos que anunciam.

Hoje, está previsto o uso de apenas uma frase: "ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado". Com as novas regras, haverá uma série de variações, com alertas específicos para os produtos.O tamanho das advertências também foi alvo do novo texto. Ele terá que corresponder a pelo menos 20% da maior fonte utilizada na peça publicitária.

Há também novas restrições à linguagem. Não se poderá, por exemplo, usar expressões como "tome", "use" e "experimente" ou dizer que o remédio é "saboroso" ou algo similar.

Fonte: Folha de S.Paulo

17 de dezembro de 2008

Lula, Collor e uma medalha

Leio na internet que hoje faz 19 anos do segundo turno da eleição entre Fernando Collor e Lula. Tenho duas lembranças daquele domingo: a primeira era a do "L" feito com a mão direita por aqueles que votaram no "sapo barbudo", felizmente meu pai entre eles; a segunda também tem a ver com meu pai e um desencontro bem triste.

Eu jogava futebol no Pequeninos do Jockey em 1989. Meu time foi campeão naquele ano e a entrega das medalhas a todos os vencedores ficou marcada para aquele domingo. Caberia aos pais ou a algum parente próximo colocá-las nos pescoços da molecada. A festa prometia ser bem bacana.

Meu pai precisou trabalhar naquele domingo até o início da tarde e, se minha memória não me trai, foi direto para a premiação, que estava marcada para umas 15h. O local onde ele iria votar era perto e haveria tempo suficiente para os dois compromissos. Mas eis que chega o horário marcado e nada de as medalhas chegarem, apesar de todos os moleques e seus pais já estarem lá perfilados. Passam-se os minutos e nada... Damasceno-Pai então decide ir correndo votar.

Má escolha. Mal ele passou do portão do Jockey, as medalhas chegaram. A partir de então, por mais que eu tente me lembrar, não consigo ter bem claro se minha mãe e minha irmã estavam lá ou se fiquei sozinho. No final deu tudo errado: Lula perdeu, o modo como a medalha parou no meu pescoço ficou apagado da minha memória e imagino o quão constrangido meu pai deve ter ficado.

11 de dezembro de 2008

Leituras, cochilos e espiadas

Ah, os ônibus. Sacolejantes, apertados, desconfortáveis, mas —já reparou? — também fonte inesgotável de comportamentos do cotidiano. E o que é bem legal já destaco de cara: as pessoas têm lido mais do que há alguns anos. Sim, é verdade! Ontem resolvi dar uma espiada nisso com mais cuidado.

O ônibus estava mais vazio do que o normal no caminho do trabalho para casa. Em pé e com os olhos meio cansados, me pus a observar as pessoas. Acreditem: apenas entre os que estavam sentados na parte traseira do veículo (depois da catraca), havia seis indivíduos lendo algo.

Supondo que caibam umas 30 pessoas sentadas nessa parte do ônibus... são respeitáveis 20% do total! Resolvi esticar o pescoço e ver o que liam. Um senhor lia a "Veja". Uma moça com cara de vestibulanda lia "A Cidade e as Serras". A senhora mais velha entre as leitoras tinha algo de literatura espírita em mãos (supus pelo sobrenome Gasparetto na capa) e a seu lado viajava um bigodudo com um livro em inglês, cheio de fotos da Inglaterra. Uma moça mais ou menos na casa dos 30 anos lia uma revista em quadrinhos (de longe pareceu essa linha nova da Turma da Mônica, com os personagens adolescentes). A outra moça com livro nas mãos desceu logo e não pude ver sua capa.

O outro artefato cultural (ou não) que chama a atenção ultimamente nos ônibus é a proliferação de fones de ouvido em inúmeras cabeças. Predominam os pequenos, que ficam enfiados nas orelhas — quando aparece algum daqueles à la DJ, bem grandões, normalmente pertence a sujeitos cheios de marra, meio esquisitões. Vez por outra aparece também algum sem-noção (cobradores inclusive) com radinhos de pilha tradicionais, daqueles que todos ao redor compartilham o som. Invariavelmente tocam pagode ou sertanejo.

Pelo que se vê nos ônibus é possível deduzir também que o paulistano, em sua maioria, é um indivíduo que dorme mal pra caramba — ou então é um sujeito que dorme fácil. Mais da metade do ônibus de ontem dormia — alguns com fones nos ouvidos. Na rua, fazia 29º e vinham buzinas por todos os lados. O motorista freava bruscamente a todo instante. A claridade era insuportável sem óculos escuros. Mas mesmo assim ao menos uns 15 passageiros cochilavam gostoso, alguns de boca aberta, outros com a fisionomia desconfiada e impaciente.

O trânsito de repente ficou bem ruim, perto do cruzamento da Rebouças com a Faria Lima, e, mesmo estando de pé, resolvi sacar um livro da mochila. Percebi então que fora os que dormiam, ouviam música ou liam algo, sobraram poucos passageiros. Passageiros esses que simplesmente pensavam na vida, viam a cidade passar pela janela, se distraíam sem colocar os olhos por muito tempo em nenhum ponto específico. Nenhum deles era jovem. Nenhum deles conversava entre si, mesmo nos bancos reservados aos idosos.

10 de dezembro de 2008

Emos

Já tive que tentar explicar pra umas cinco pessoas (a maior parte delas acima dos 40 anos) o que significa o termo "emo", cada vez mais comum de ser visto e ouvido por aí. Apesar de ter uma boa noção do que se trata, eu sempre ficava com a impressão de não ter dado uma boa explicação aos curiosos, talvez, de certa forma, por uma falta de curiosidade (ou interesse) de minha parte.

Pois bem. Eis que o G1 publicou uma matéria a respeito disso hoje, com uma lista de 15 discos fundamentais para entender o "movimento". A leitura me fez ter menos interesse ainda, mas pelo menos fica o registro de algo que não tem como ser simplesmente ignorado atualmente.

Aí vai o início da matéria:

Popularizado por bandas como NxZero e Fall Out Boy, o emo é um dos gêneros musicais mais influentes e controversos do rock atual. Rótulos e preconceitos à parte, o G1 preparou uma lista de bandas e discos que ajudam a entender as raízes históricas e musicais do estilo, para além das franjas e maquiagens exibidas por ídolos e fãs.

A seleção a seguir pretende mostrar, de forma cronológica, os diferentes significados que o emo já adquiriu ao longo dos anos, partindo das raízes pré-emo e passando também por bandas que influenciaram o gênero, mesmo vindo de um outro background, até os representantes da cena atual.

Mesmo que nenhum artista até hoje goste de se associar muito ao gênero, o termo “emo-core”, de onde saiu a abreviação “emo” (de “emocional”) teve lugar e época para nascer: foi cunhado em 1984, em Washington, capital dos EUA, como insulto para as bandas que participavam do movimento conhecido como Revolution Summer. Bandas punks como Rites of Spring e Embrace (de Ian McKaye, que viria a formar o Fugazi) tratavam a esfera pessoal como se fosse política e, dizem, faziam as pessoas chorarem em seus shows, tamanha a intensidade das apresentações.

Mas é Andy Greenwald, autor de “Nothing feels good: punk rock, teenagers and emo” (“Nada está bem: punk rock, adolescentes e emo”, em inglês”), quem oferece a definição mais precisa (e sarcástica) do emo, como “talvez, o gênero musical mais adolescente que existe: ultra dramático, inclinado à poesia ruim, transbordando romance e auto-repulsa, acabando antes que você perceba”.

O restante pode ser lido clicando aqui

4 de dezembro de 2008

Charme por todos os poros


O assunto é "Vicky Cristina Barcelona".

Woody Allen mandou bem mais uma vez... OK!

Barcelona parece ser um lugar realmente encantador... OK!

Penelope Cruz e Javier Bardem são dois baita atores... OK!

O filme tem uns ares "almodovarianos"... OK!

Mas a palavra para a nova empreitada européia do mr. Allen é CHARME. Charme e mais charme. O humor do filme é charmoso. Os diálogos são charmosos. Os atores são charmosos, cada um a sua maneira (a Penelope é imbatível!). As cenas picantes transitam da pieguice à sensualidade repletas de charme a cada tomada. A música principal ("No he encontrado la razón porque me duele el corazón porque es tan fuerte que solo podré vivirte en la distancia y escribirte una canción. Te quiero Barcelona") é cantada de um jeito charmoso pra caramba. Até a narração, que inicialmente parece um tanto quanto fora de lugar, acaba por se tornar um bocado charmosa...

Que Woody Allen nunca mais volte a filmar em Nova York!

E que, pelamordedeus, a Scarlett Johansson não vire, nem em pensamento, algo semelhante à Mia Farrow...

1 de dezembro de 2008

Gênio deprimido

Sexta-feira, Livraria Cultura da avenida Paulista. Show curtinho do Guinga, para umas 50 pessoas. Em dado momento, uma senhorinha (sem trocadilhos musicais) pede pra ele cantar "Você, você", parceria com Chico Buarque gravada por Monica Salmaso. Guinga responde que não costuma cantar essa música, e que naquela tarde seria ainda mais difícil pelo fato de sua voz ter sido afetada por um recente problema de depressão.

Após o show, pouco antes da tradicional rodinha de autógrafos e sessão de fotos, havia um burburinho sobre o problema do artista. Um dos espectadores sussurrou que era resquício do fim do casamento. Sigo na dúvida, mas seu abatimento era visível. Enquanto fiquei por lá, a única menção à doença partiu do próprio Guinga, após ser abraçado por uma jovem fã. "Muito obrigado. É esse tipo de coisa que preciso ouvir ultimamente", disse, após a moça agradecê-lo por existir e por compor tão belas canções.

Apesar do problema na voz (de fato em alguns momentos sua habitual e charmosa rouquidão soava estranha), Guinga tocou e cantou "Você, você" para delírio da senhora de cabelos completamente brancos sentada à primeira fileira. Cantou também "Contenda" e estimulou a platéia a sussurrar "Carinhoso" sobre um arranjo sensacional, brincadeira já feita em outros shows.

Depressão à parte, Guinga abriu o show com uma nova canção ("Anjo candente", se não me falha a memória), que deve ser letrada em breve pelo velho parceiro Aldir Blanc. Ao falar do letrista, disse que o havia reencontrado recentemente, após anos, para gravar um especial no Canal Brasil, com a participação de Marcus Tardelli, a quem Guinga mais uma vez se referiu como "o maior violinista do mundo".

Em outro momento que poderia ter sido fenomenal (e foi, até certo ponto), Guinga pediu desculpa aos presentes para apresentar um arranjo que fez de "Estrada branca", de Tom Jobim. "O sujeito já começa perdendo quando tenta tocar o mestre", brincou. Tudo ia bem até que toca um celular na platéia. Guinga pára. "Me desconcentrei, desculpem. Isso já aconteceu comigo também, mas perdi o fio".

Não, ninguém bateu no sujeito. Mas Guinga tocou "Baião de Lacan" e cantou "Senhorinha". E a platéia sorriu, apesar do semblante carregado do gênio.

30 de novembro de 2008

Atraso

CTRL C + CTRL V de um texto da Folha deste domingo, assinado por Marcelo Leite:

Criacionismo no Mackenzie

O Instituto Presbiteriano Mackenzie abrange uma universidade e uma escola das mais tradicionais de São Paulo. Só na unidade paulistana do colégio há mais de 1.800 alunos. Seu campus no quarteirão ladeado pela avenida da Consolação e pela rua Maria Antônia é um ponto de referência na cidade.

Talvez poucos se dêem conta de que se trata de um estabelecimento confessional de ensino. Isso está bem explícito no nome da instituição, porém. Agora o Colégio Mackenzie é também, oficialmente, criacionista.

Criacionismo é a doutrina segundo a qual Deus criou o mundo com todas as espécies que existem hoje. Isso contradiz a explicação darwinista para a diversidade biológica, fruto da evolução por seleção natural. Inúmeras observações comprovam postulados centrais do darwinismo, como a ascendência comum (todas as espécies provêm de um ancestral único).

O fato de o DNA ser a molécula da hereditariedade em todas elas é a melhor prova desse princípio. Os primeiros seres vivos da Terra "inventaram" essa maneira de transmitir características de uma geração a outra, há cerca de 4 bilhões de anos, e ela se perpetuou desde então.

A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies.
Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, "Origem das Espécies", os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de "microevolução" (organismos se adaptam a novas condições do meio).

Não, porém, a "macroevolução" (tal adaptação não seria suficiente para originar novas espécies, em verdade criadas por Deus).

A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências. Em 2008 foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1, ainda em fase piloto, uma série de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI, na abreviação em inglês), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

A coleção utilizada com crianças de 6 a 9 anos se chama Crescer em Sabedoria. Na capa do volume do terceiro ano estava estampado "Ciências - Projeto Inteligente".
É uma alusão ao argumento do "design inteligente": a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. "Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente", afirma-se na pág. 10. O item 2.1 do volume se chama "O plano de Deus para os ambientes".

Pode ser lido na pág. 17: "Deus projetou as cores e as formas de cada animal e o colocou em um ambiente que era perfeito para eles [sic]. Quando um animal usa suas cores ou formas para se esconder em seu ambiente, dizemos que ele está camuflado".

A direção do Mackenzie justifica a omissão da evolução por seleção natural, nessa apostila de ciências, dizendo que se trata de conteúdo previsto apenas para o ensino fundamental 2. Além disso, o material da fase piloto de 2008 foi revisto e a ênfase religiosa, atenuada, mas não excluída.

Darwin, todavia, continua de fora.

Só uma dúzia de pais reclamou.

28 de novembro de 2008

Outra música - de novo

Ainda para aaquela série de músicas do CD em inglês do Renato Russo, fui atrás de versões no Youtube para "If tomorrow never comes", composta pelo Garth Brooks. Fiquei impressionado com a quantidade de versões que apareceram, em especial de anônimos que pegam o violão, se colocam em frente a uma câmera e depois se deixam ver pelo mundo afora.

Abaixo, um desses caras, que assina simplesmente como "gmhoward":

26 de novembro de 2008

Ah, a graça feminina...

Tenho procurado evitar falar de futebol por aqui, pois tenho concentrado minha soberba são-paulina em conversas nas quais posso colocar em prática sorrisos sarcásticos e manifestações de inalcançável superioridade. Mas abrirei uma exceção: o motivo é nobre e não tem nada a ver com o hexa.

Eu já havia visto a charmosa Leah em ação. Trata-se de uma promissora lateral-esquerda do futebol feminino brasileiro que ficou em evidência por seu modo nada convencional de cobrar arremessos de lateral. Se não me engano, a Globo já havia feito uma reportagem com a moçoila. E não é que há alguns dias, durante o Mundial Sub-20, nossa seleção marcou um gol após uma dessas cobranças esquisitas, ao estilo Daiane dos Santos?

Melhor do que qualquer descrição é ver o lance. E rever, rever, rever...

25 de novembro de 2008

Ingênuo, romântico ou simplesmente vacilão?

História ouvida agora há pouco, no trabalho. O protagonista é amigo do marido do cunhado do vizinho do primo do tio do pai da cunhada da sogra...

O Fulano da história, sujeito de classe média alta, chama para sair uma moça na qual está interessadíssimo. Para impressioná-la, decide jantar com a dita-cuja num puta restaurante. À mesa, ele repara que os pratos custam em torno de R$ 600,00 (sim, você leu direito!) Tudo bem, para tais gastos ele estava preparado. O rapaz pede então a carta de vinhos. E ai começam pra valer os problemas...

Segundo o moço, em restaurantes desse quilate a carta de vinhos não possui os preços de cada garrafa. Minimamente precavido, Fulano resolve fugir dos Romanée-Conti, conhecidos pelo preço na casa dos milhares de dólares a garrafa. Doce ilusão...

Jantar gostoso, bebida maravilhosa, planos diversos para o resto da noite... tudo perfeito até vir a conta. Assustado, o cavalheiro chama o garçom e diz que há algo errado, condição negada pelo funcionário. Ele, então, esfrega os olhos e se dá conta da tragédia: quase R$ 19 mil.

O pós-jantar imediatamente ficou em outra dimensão. Até a presença da moça ficou em oitavo plano. FODEU!! Como pagar uma desgraça dessa? Como um vinho pode custar tão caro? Como saio daqui? Como não pude perguntar o preço desta joça?

Pra resumir a história, a gerência do restaurante entendeu a situação e entrou num acordo: o sujeito poderia pagar em suaves prestações "apenas" o jantar e o preço de custo do vinho. Coisa pouca, só um tanto acima dos R$ 10 mil...

24 de novembro de 2008

Então, tá!

A Folha de S.Paulo publicou neste domingo um caderno especial sobre racismo no Brasil. Em sua última página, foi publicada uma pesquisa na qual os entrevistados atribuíram a 11 personalides brasileiras determinada cor de pele, entre as opções branca, parda e preta.

Entre as 11 figuras públicas, dois políticos: Fernando Henrique e Lula. Ambos, na minha modesta opinião, pardos. Mas não para 70% dos brasileiros ouvidos, que consideram FHC branco, contra 45% que vêem no atual presidente a mesma cor. FHC, aquele que disse certa vez "mulatinho", por "ter um pé na cozinha", é visto por 17% como pardo, contra 42% que vêem Lula dessa forma.

O antropólogo Antônio Risério, ouvido pela reportagem, tem uma possível resposta para os números: "FHC apareceu como mais branco do que o Lula. Mas o FHC é branco? Ele é um mulato. Se as pessoas não soubessem que se tratava de FHC, provavelmente, julgando apenas pela cor da pele, diriam que se tratava de um mulato. Mas como é o FHC, um intelectual, passa a ser visto como branco".

Outras disparidades: Caetano Veloso é negro para 14% da população, Camila Pitanga é branca para 7% e Gilberto Gil não é negro para 12%. Então, tá!

18 de novembro de 2008

Outra música

Desta vez, uma do Dylan, ainda seguindo a lista das músicas gravadas pelo Renato Russo: "If you see her, say hello". Na gravação do então vocalista da Legião, todos os artigos e pronomes femininos foram trocados por masculinos - a começar pelo "her" do título - por questões já conhecidas.

Em comum, além de belas canções, as faixas escolhidas para o disco do Renato Russo também têm em comum belas letras. Vale a pena uma googlada rápida pra conferir.

17 de novembro de 2008

Uma música

Depois de muito tempo, ontem me peguei ouvindo o "Stonewall Celebration Concert", disco de 1994 do Renato Russo, só com canções em inglês. Sempre gostei de suas interpretações das 21 músicas (que vão de Madonna a Dylan, de Irving Berlin a Bernstein e Quincy Jones), mas só agora fui me dar conta de que, entre as interpretações originais ou mais famosas, ouvi pouquíssimas.

Conforme for fazendo isso, irei colocando as mais bacanas por aqui. Pra começar, escolhi "I get along without you very well", de Hoagy Carmichael, já gravada por gargantas do quilate de Billie Holiday. A interpretação abaixo é de Ninna Simone:

12 de novembro de 2008

I fell fine

R.E.M. em São Paulo. Longe dos Estados Unidos na semana em que Obama foi eleito presidente (com o óbvio apoio do vocalista Michael Stipe, que antecipou seu voto antes da viagem), a banda fez questão de se referir ao novo presidente de maneira entusiástica nos intervalos entre uma música e outra. A platéia adorava. Mas foi no refrão de "It's the end of the world as we know it" que os caras deram o tom definitivo da atual fase política norte-americana.

OK, é cedo, precoce, prematuro dizer que o é o fim desse mundo atual como o que conhecemos e vemos há décadas, mas a simbologia da vitória de Obama, justamente após o governo fascista de Bush e no meio de uma crise financeira causada por quem manda no planeta há séculos, traz um inevitável otimismo àqueles que são ao menos um pouquinho progressistas, que ainda crêem que a política é, sim, um dos meios pelos quais a sociedade pode ser menos desigual, mais pacífica, simplesmente melhor do que é hoje.

Ao invés de quase sussurrar "I feel fine" ao final do refrão, como na gravação original de "It's the end...", Stipe preferiu gritar com todas as forças que estava se sentindo bem pra caramba com a nova fase. Um mundo com menos poder dos neoconservadores norte-americanos pode não ser o ideal, mas é no mínimo um motivo pra se divertir demais, como no show dos caras.

Política à parte, sobra música muito bem tocada e o carisma inesgotável de Stipe. Quase duas horas de show sem grandes pirotecnias ou exageros. Seleção muito bem escolhida, cheia de hits intercalados com lados B e algumas faixas do disco mais recente, "Accelerate", com catarse à la U2 em "Losing my religion" e "Everybody hurts". Esta última pode ser vista aqui embaixo:

11 de novembro de 2008

Mais uma do Rubem Alves

Uma bela e rápida crônica pra alegrar o dia...

O flautista

Fortaleza . Eu ia fazer uma fala. Aí me disseram que antes haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianças pobres: sorriso no rosto, camiseta abóbora, flautinhas na mão. O regente era um mocinho magro. Ao final, o Marcelo - esse era o seu nome - me convidou a visitar a orquestrinha na cidade de Aquiraz, bairro Tapera, a uma hora de Fortaleza.

O concerto seria numa chácara, à noite. Mangueiras enormes, céu estrelado. Tocaram a sua alegria. Aí o Marcelo se juntou conosco. Pedimos que contasse sua história.

Família muito pobre. Pai bravo e batedor. Comiam os peixes que tarrafeavam num rio. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo trabalhava numa padaria. Ganhava R$ 10 por mês. E ainda tarrafeava, depois de terminado o trabalho na padaria.

O seu grande sonho era ser músico, baterista. Pois um dia correu a notícia de que iriam formar uma banda. Quem quisesse que se candidatasse. O Marcelo se candidatou. Mas o homem que fez a apresentação do projeto nada falou sobre baterias. Ao invés disso tocou uma flautinha. O Marcelo se esqueceu da bateria e se apaixonou pela flauta.

O pai disse um "não" grosso e definitivo quando soube das intenções do filho. "Flauta é coisa de vagabundo. Filho meu não toca flauta..." Marcelo soube então que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido.

A inscrição pra valer acabava às cinco da tarde. Marcelo, nessa hora, estava na padaria. Só pôde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, por aflição, caiu da bicicleta. Os peixes se espalharam, e ele ficou todo escalavrado.

E foi assim que chegou ao lugar da inscrição com duas horas de atraso. Mas o homem da inscrição ficou com dó dele e o inscreveu. Ele tinha 11 anos. Acontecia que a flauta custava R$ 10, o salário de todo um mês. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o chão, em busca de moedas perdidas. Por um ano juntou moedas de um centavo. Juntou os R$ 10. Comprou a flauta de plástico. Como não podia estudar em casa, pela braveza do pai, passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe da casa. No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta se estragasse com a água. Escondeu-a em casa. Ao final do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava.

Havia encontrado a flauta. O pai acendeu uma fogueira e a queimou, aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele não desistiu.Mais um ano juntando centavos até comprar nova flauta. Aí ele arranjou uma aluna. E ganhava R$ 10 por mês! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas! R$ 90. O pai passou a gostar de flauta.

Foi então que o Marcelo teve a idéia de ensinar flauta para as crianças sem nada ganhar. E assim surgiu a orquestra de flautas. Naquela noite, debaixo da mangueira, ele tinha 18 anos. "Eu tenho um sonho", ele disse. "Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro. Vai levar muito tempo para ajuntar o dinheiro..."

Aí uma professora que estava na roda abriu-se num sorriso e disse: "Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa caixa de veludo. Flauta que ninguém toca... A flauta é sua!"Isso aconteceu faz tempo. O Marcelo entrou para a universidade, tornou-se flautista e regente. E continua ensinando música para as crianças. E não sei por que, o fato é que me elegeu seu padrinho...

6 de novembro de 2008

Oito versos

Uma melodia bacana, uma letra singela. E um bom dia pra quem passou por aqui hoje.

¿Y tu qué has hecho?

En el tronco de um árbol una niña
Grabó su nombre henchida de placer
Y el árbol conmovido Allá en su seno
A la niña una flor dejó caer

Yo soy el árbol conmovido y triste
Tu eres la niña que mi tronco hirió
Yo guardo siempre tu querido nombre
¿y tu, qué hás hecho de mi pobre flor?

E você o que fez?

No tronco de uma árvore uma menina
Gravou seu nome, cheia de prazer
E a árvore, comovida, ali em seu seio
Para a menina uma flor deixou cair

Eu sou a árvore comovida e triste
Você, a menina que meu tronco riscou
Eu guardo sempre seu querido nome
E você? O que fez de minha pobre flor?

5 de novembro de 2008

A culpa é de quem?

O ser humano é uma espécie bacana por natureza ou é uma raça miserável que precisa de leis e controles pra andar na linha? Cada vez mais eu me convenço da segunda opção.

Só pra ilustrar essa fase pessimista, dois exemplos que não são nenhuma novidade, mas que dão o tom lamurioso deste post:

Nepotismo é aceito por 50% dos brasileiros

Pesquisa feita a pedido da Comissão de Ética Pública, órgão vinculado à Presidência da República, mostra que a maioria dos cidadãos tolera a prática do nepotismo: 50,3% admitiram que, se pudessem, contratariam parentes. Da parcela de servidores públicos entrevistados, 32,1% disseram o mesmo.

O levantamento foi feito pelo professor Ricardo Caldas, da UnB (Universidade de Brasília), entre março e junho. Foram ouvidas 1.767 pessoas de várias profissões de todo o país e 1.027 servidores públicos de seis Estados (SP, MG, PA, PB, PR e RJ) e do Distrito Federal.

E, por fim, um videozinho do CQC:

3 de novembro de 2008

Eleições nos EUA

Eu ainda vou entender pra cacete sobre a história, a política e dos Estados Unidos. Como isso vai demorar um bocado, o jeito é tentar ler o que é publicado de bom sobre a terra do Tio Sam. Em ano de eleições por lá, a melhor leitura em português nos últimos meses é a do blog do Argemiro Ferreira.

O artigo que reproduzo de seu blog é sobre o sistema eleitoral do país. A partir dele dá pra ter uma noção do viés crítico adotado pelo jornalista.

Colégio eleitoral: obsoleto antidemocrático

No primeiro discurso como um duvidoso "presidente eleito" — em dezembro de 2000, depois que a Suprema Corte mandou parar a recontagem de votos da Flórida e fez prevalecer aquele resultado suspeito proclamado antes pela secretária de Estado Katherine Harris — George W. Bush tentou fazer um paralelo entre a situação que então vivia, à sombra da ilegitimidade, e o resultado da eleição presidencial de 1800, que deu a vitória a Thomas Jefferson (1743-1826) sobre Aaron Burr (1756-1836).

Com isso sugeria que também Jefferson, intelectual, estadista e 3º presidente dos EUA, fora empossado sob suspeita, tornando-se depois um grande presidente. Na verdade, nada havia na eleição que pudesse justificar tal comparação — ou, ao menos, nada além do potencial destrutivo da rivalidade entre os federalistas de Alexander Hamilton e os democratas-republicanos de Jefferson.

A mecânica do processo eleitoral, previsto na Constituição já era então uma receita de crise. Houve empate nos votos do Colégio Eleitoral e a decisão, transferida para a Câmara, só deu a Casa Branca a Jefferson depois de uma semana de impasse e incerteza, 36 escrutínios, 19 empates e, afinal, a abstenção de dois estados. Mas Jefferson, ao contrário de Bush, além de ser um estadista tinha vencido também na votação popular.

Contraste entre dois presidentes

Apesar de outros republicanos bushistas terem feito antes o mesmo paralelo, em claro esforço para aproximar a imagem de um Bush insignificante à de um dos pais fundadores da república (que fora antes secretário de Estado e vice-presidente), os críticos do suposto presidente eleito preferiam compará-lo em 2000 aos três que, como ele, viraram presidente sem vencer a votação popular no país.

Jefferson, afinal, era um pensador e líder no Congresso Continental, além de autor da Declaracão da Independência em 1776, governador da Virgínia e embaixador na França. Só perdera a presidência para John Adams, quatro anos antes, por três votos no Colégio Eleitoral — tornando-se vice, conforme outra regra equivocada da época, que destinava o cargo número dois ao segundo mais votado.

Os acanhados dotes intelectuais de Bush — cuja experiência antes do governo do Texas limitara-se a negócios duvidosos (e fracassados) na área de petróleo, além da propriedade, com sócios amigos do pai, de um clube de beisebol — nada tinha a ver com a biografia de Jefferson. Como Ronald Reagan, seu ídolo, Bush abominava leitura séria (à espera da decisão da Flórida, disse estar lendo a biografia de um jogador de baseball).

Os federalistas e os republicanos

Deixo para depois paralelos possíveis entre a eleição de 2000 e as de John Quincy Adams (1825-29), Rutherford B. Hayes (1877-81) e Benjamin Harrison (1889-93), que também perderam a votação popular e ganharam a presidência no Colégio Eleitoral. A relevância de 1800 é principalmente por ter sido a primeira transferência pacífica — do federalista John Adams para o republicano Jefferson.

Alguns destacam que isso ocorreu apesar do colapso do sistema eleitoral. Simpático à Revolução Francesa, Jefferson era alvo de acusações sórdidas, por defender relações mais fortes com a França (outros apegavam-se mais à herança anglófila) e intepretação rigorosa da Constituição, limitando o poder federal. Hamilton discordou dele sobre a jurisdição federal e a França.

Jefferson fora vice de Adams (outro federalista), de 1797 a 1801, apenas porque se opusera a ele na eleição de 1796, ano do confronto radical republicanos-federalistas. Já a crise de 1800 resultou de conchavos e espertezas no Colégio Eleitoral. Para dividir os republicanos, Hamilton foi ambíguo sobre Aaron Burr. Depois do empate no Colégio (73 votos) e do impasse, Jefferson venceu na Câmara. Burr tornou-se vice e anos depois, ressentido, mataria Hamilton em duelo.

A sobrevivência do Colégio parece até tributo a uma persistente falta de confiança no eleitor comum. Pois na reforma sofrida pelo processo eleitoral em 1804, com a 12ª Emenda à Constituição, eliminou-se um problema real, ao se estabelecer votos separados para o presidente e o vice, e ficou decidido ainda que em caso de empate caberia à Câmara escolher o presidente e ao Senado, o vice-presidente. Só que era pouco.

A insuficiência daqueles remendos

Sobreviveram complicadores, com falhas potencialmente perigosas no sistema. A maior é a possibilidade de discrepância entre o resultado da votação popular e o do colégio — como ocorreu em 1824, 1876, 1888 e 2000. É inacreditável que um legado histórico equivocado, que só se explicaria por razões práticas como a dimensão do país, a deficiência de transporte e a dificuldade de comunicação, ainda prevaleça na era do jato, da Internet e do telefone celular.

Podia-se entender a desconfiança do julgamento popular por parte da elite de sábios e iluminados (que de fato existiram e fizeram diferença). Mas hoje a instituição é apenas obsoleta e antidemocrática, até pela falta de critério na escolha, pelos partidos, dos membros do Colégio Eleitoral. Igualmente antidemocrático é atribuir ao vencedor num estado todos os votos eleitorais desse estado, ao invés de distribuí-los na proporção de cada um dos votados.

Acho sintomático que os escolhidos pelo Colégio em 1824, 1876 e 1888, sem vitória na votação popular, tenham sido rejeitados quatro anos depois. Bush, uma exceção, sai agora em meio ao caos que seu governo criou, com o mais baixo índice de aprovação já medido para um presidente. É lícito supor que ele só teve mais quatro anos graças ao 11/9 e à histeria patrioteira que conseguiu manipular com o respaldo de uma mídia submissa e atemorizada.

Encerrando a história

Para encerrar nossa discussão sobre o Colégio Eleitoral, é relevante trazer mais informações históricas. Elas permitem que cada um chegue às próprias conclusões - avaliando se a instituição está obsoleta e se, pior ainda, pode até ser acusada de antidemocrática, como foi afirmado no post anterior. Em primeiro lugar, convém esquecer a idéia de uma Constituição dos EUA como algo perfeito.

Ela não é e nem poderia ser perfeita - tanto que, no desdobramento, teve de receber muitas correções relevantes, na forma de emendas constitucionais. E mais: o texto original resultou de confrontos, negociações e compromisso. Por exemplo, havia 3,8 milhões de pessoas no país e 18% delas (700 mil) eram escravos. Só não havia escravos em Massachusetts, Vermont e Maine.
Na Carolina do Norte, 43% eram escravos. Na Virgínia, os escravos eram ainda mais numerosos, embora a percentagem deles na população fosse um pouco menor, 39%. Se Massachusetts insistisse no fim da escravidão, talvez não houvesse Constituição. O texto referia-se aos escravos como "outras pessoas". Até previa a devolução aos estados de origem daqueles escravos que fugissem em busca da liberdade.

Escravos e direitos dos estados

O Colégio Eleitoral nasceu com a Constituição mas não tinha esse ou qualquer outro nome. O artigo 2, seção 1, descrevia o processo: cada estado escolhe eleitores em número igual ao de seus deputados e senadores. Cada eleitor votava em dois candidatos — e pelo menos um dos votados tinha de ser de outro estado. Quem recebesse maior número de votos seria presidente; o segundo, vice-presidente.

A preocupação central era em torno dos direitos dos estados (temia-se que os maiores impussem sua vontade aos menores). Continuou a ser assim nos anos seguintes (para o sul racista, teria sido essa a causa real da guerra civil na década de 1860). O impasse na eleição de 1800, com o empate de votos eleitorais entre Thomas Jefferson e Aaron Burr, acabou por detonar o processo eleitoral imaginado inicialmente, forçando a 12ª Emenda, mas isso não neutralizou os complicadores.

Eles reapareceram em 1824, 1876, 1888 e 2000. A exceção de George W. Bush, os outros que se tornaram presidentes nesses anos, a começar por John Quincy Adams (1825-29), não tiveram novo mandato. Quincy Adams (veja acima) é especialmente sugestivo: foi o único caso, além de Bush, em que o filho de um presidente também se tornou presidente (John Adams, pai, fora o 2º presidente, 1797-1801).

Na eleição de 1824 Andrew Jackson teve mais votos populares (152.901, 42,34%) do que Quincy Adams (114.023, 31,57%). Jackson teve mais votos também no Colégio Eleitoral (99, contra 84 de Adams), mas nenhum obteve maioria absoluta e a disputa foi para a Câmara — cujo presidente, Henry Clay, fez conchavo com Adams, em troca do cargo de secretário de Estado.

A segregação racial prorrogada

Adams ficou tão marcado como beneficiário de uma eleição ilegítima que quatro anos depois sofreu derrota esmagadora frente ao mesmo Jackson — tanto na votação popular do país (647.292, 56%, contra 507.730, 44%) como no próprio Colégio Eleitoral, que em 1828 consagrou a escolha de Jackson, reeleito ainda para o segundo mandato (em 1832, contra Clay).

Rutherford B. Hayes (1877-81) foi o segundo na história a se tornar presidente sem ganhar a votação popular. Em 1876 esse republicano de Ohio (veja ao lado) teve 48% dos votos (4.036.572) e seu rival democrata Samuel J. Tilden, de Nova York, 51% (4.284.020). No Colégio Eleitoral, vieram resultados duplos de três estados do sul (Carolina do Sul, Flórida e Lousiana) — um a favor de cada partido.

Tilden só precisava de mais um dos 20 votos eleitorais (dos três estados) em disputa, Hayes precisava de todos. O Congresso resolveu confiar a solução do impasse a uma comissão de 15 membros (10 parlamentares e cinco juízes da Suprema Corte). Em teoria, a comissão era apartidária, mas na verdade tinha oito republicanos e um democrata — e apontou Hayes.

Apesar da rejeição do resultado pela Câmara dos Deputados, Hayes foi confirmado no Senado. Prevaleceu graças ao contexto da época. Em troca de sua concordância, o Sul derrotado na Guerra Civil, até então sob o regime da chamada Reconstrução, obteve o fim da "ocupação" nortista. E os democratas voltaram ao poder ali, impondo mais um século de segregação racial.

O fantasma da ilegitimidade

Ao fim de quatro anos, certo de que não se reelegeria, Hayes sequer candidatou-se a novo mandato. Doze anos depois, em 1888, outro republicano, Benjamin Harrison, tornou-se o terceiro a virar presidente (1889-93) sem ganhar a votação popular no país. Obteve 5.444.337 votos contra 5.540.050 dados ao presidente democrata Grover Cleveland. Ganhou só no Colégio Eleitoral, por 233 contra 168.

Como nos exemplos anteriores, não houve reeleição. Harrison tentou um segundo mandato em 1892, mas estava tão impopular ao fim do primeiro que não escapou da revanche do ex-presidente Cleveland, que ganhou por maioria esmagadora, tanto na votação popular (5.554.414 contra 5.190.801) como no Colégio Eleitoral (277 contra 145). De novo o fantasma da ilegitimidade.

O confronto Bush-Gore ocorreu mais de um século (111 anos) depois da eleição de Harrison. Na votação popular Bush perdeu por mais de meio milhão de votos: Gore, 50.999.897, 48,38%; Bush, 50.456.002, 47,87%. Tornou-se o 43º presidente porque a Suprema Corte validou a contagem duvidosa da Flórida, governada por seu irmão Jeb, que deu a ele 537 votos populares mais. Isso permitiu somar a favor de Bush todos os 25 votos da Flórida no Colégio Eleitoral, totalizando nacionalmente 271 — contra 266 do rival Gore. O resultado serviu para escancarar a inconveniência, para dizer o mínimo, da manutenção de um processo eleitoral obsoleto e antidemocrático. Além disso, levou a decisão, pela primeira vez na história, para o tapetão judicial.

30 de outubro de 2008

Polêmica à vista

A Rolling Stone deste mês propõe sua lista dos 100 maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Não li a reportagem completa, mas a relação dos 10 primeiros é a seguinte:

1. Tom Jobim
2. João Gilberto
3. Chico Buarque
4. Caetano Veloso
5. Jorge Ben Jor
6. Roberto Carlos
7. Noel Rosa
8. Cartola
9. Tim Maia
10. Gilberto Gil

Apesar de a revista não ter pegado no breu em sua versão brasileira, imagino que venha polêmica por aí devido a seu público bem heterogêneo. Uma edição recente tinha os caras do NX Zero na capa como vieram ao mundo. Os poucos leitores da revista que conheço fazem parte de uma turma que torce o nariz pra qualquer coisa que remeta à MPB.

Mas mesmo entre os leitores que gostam e conhecem um pouco de música boa, sempre vão ter os que discordam de alguma posição, os que vão comparar pela enésima vez Chico com Caetano, os que vão dizer que o Robertão é uma bosta, que o Gil só sabe fazer falsetes, que o Ben Jor só canta "teteteteretetereterete" etc etc etc.

De minha modesta parte, apenas quatro pitacos que podem beirar a heresia: 1) simpatizo com Ben Jor, mas nunca consegui ver genialidade nele; 2) Cartola é foda, mas desconfio que a onda pelos seus 100 anos contribuiu para ele entrar nessa lista em posição tão privilegiada; 3) Tim Maia é do cacete, mas a biografia do Nelson Motta tem elevado o Síndico a patamares um pouco exagerados em algumas conversas recentes por aí; 4) Robertão é o Robertão, mas essa sexta posição chega a me incomodar. Estar entre os dez já estaria de bom tamanho...

28 de outubro de 2008

Boa descoberta

Fuçando por aí em alguns sites, eis que descobri um blog bem bacana: o Futepoca, abreviação para "Futebol, política e cachaça". A página é tocada por um grupo de oito jornalistas e alguns colaboradores. Os caras se definem assim:

"O Futepoca - Futebol, Política e Cachaça tem o nobre objetivo de unir esses três temas que, na prática, já fazem parte de qualquer discussão de boteco no Brasil. Ou seja, apenas ampliamos o alcance do balcão. A idéia é basicamente jogar conversa fora, mas com focos definidos. Fiquem à vontade para colaborar. Afinal, futebol e política, ao contrário do que alguns dizem, se discutem sim. Quanto à cachaça, sempre é melhor bebê-la."

"Do ponto de vista da cachaça, na mesa do bar, há mais cerveja do que o destilado de cana. Na política, sem tanta homogeneidade, todos pendem para a esquerda. No quesito futebol, é preciso conhecer os autores para avaliar quem está de que lado".

Enfim, não faltam textos bacanas por lá. Vale a visita: http://www.futepoca.com.br/

27 de outubro de 2008

Releituras

Fuçando no meu antigo blog, achei um texto do Rubem Alves BEM legal. Aí vai:

Tênis x frescobol

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

24 de outubro de 2008

A eleição de São Paulo em um parágrafo

"São Paulo era contra Getúlio Vargas e a favor da oligarquia. Apoiou o populismo de Adhemar de Barros e inventou Jânio Quadros para a política. Vociferou contra Juscelino Kubitschek. Com as Marchas com Deus pela Família, preparou e apoiou o golpe militar de 1964. Revelou Maluf. Na eleição municipal de 1985, elegeu Jânio contra Fernando Henrique. Na primeira direta para presidente, elegeu clamorosamente Fernando Collor. FHC contra Lula? FHC duas vezes. Maluf contra Eduardo Suplicy? Maluf. Pitta contra Erundina? Pitta. Serra contra Lula? Serra. Alckmin contra Lula? Geraldinho. Serra contra Marta? Serra. Kassab contra Marta? Kassab... Quando Erundina venceu em 1988, não havia segundo turno. Em 2000, o eleitor correu para Marta só porque tinha se cansado da impagável dupla Maluf-Pitta. Exceções que confirmam a regra".
Nirlando Beirão, na CartaCapital

23 de outubro de 2008

Momento histórico

Em 1994, o então governador do RJ, Leonel Brizola, travava mais uma de suas batalhas contra a Globo. Naquele ano, no entanto, uma decisão judicial permitiu que ele tivesse um direito de resposta contra a emissora, em pleno Jornal Nacional. O resultado está aí embaixo:

22 de outubro de 2008

Vida dura

O cara aí ao lado se chama Fergal Murray. Ele é irlandês e tem um dos melhores empregos do mundo: mestre-cervejeiro. Mas não é um mero mestre-cervejeiro, pois trabalha pra Guinness.

Ele está no Brasil pela primeira vez e falou um pouco de seu trabalho numa entrevista bacana para o Guia da Folha. Saúde:

Dos milhares de bares que o sr. já visitou ao longo de seu trabalho, quais foram os mais curiosos?
Em 25 anos como mestre-cervejeiro da Guinness, já visitei mais de 10 mil pubs em mais de 150 países. Alguns dos mais interessantes, em termos de diferença de culturas, visitei em Cingapura e em Hong Kong.

O que o sr. acha dos bares paulistanos? As cervejas são servidas de maneira apropriada?
Gostei muito dos bares que visitei aqui em São Paulo. Visitei alguns pubs para avaliar o "perfect serve" da Guinness e o ambiente, além de alguns bares do estilo "boteco". Os donos dos bares são simpáticos e rigorosos com o bom serviço. Os pints [copos apropriados para servir a cerveja] de Guinness que provei nesses locais foram muito bem tirados. Fiquei impressionado com o clima descontraído e a receptividade que tive dos proprietários.

Em sua opinião, as cervejas produzidas no Brasil têm boa qualidade?
É difícil dizer, não provei muitas, mas ouvi dizer que existem muitas cervejarias de estilo artesanal que estão fazendo um bom trabalho. Há uma tendência mundial de busca de cervejas diferenciadas por parte do consumidor, com mais qualidade e sabor, e isso também parece acontecer no Brasil.

Qual é a importância dos copos no caso das bebidas Guinness?
A aparência de uma bebida é muitíssimo importante. O paladar fica ainda mais aguçado quando a visão é estimulada. Os copos especiais de Guinness, Harp e Kilkenny servem principalmente para isso. Eles são feitos para caber a quantidade inteira da cerveja, para que ela seja colocada de uma só vez no copo e o consumidor possa começar a tomá-la também "com os olhos". Especialmente no caso da Guinness, o formato mais largo do copo é o ideal para ver a cascata que se forma quando ela é servida no pint, até assentar, formar o colarinho e estar pronta para a degustação.

Há uma bolinha dentro das latas de Guinness. Por quê?
Trata-se de uma cápsula propulsora de nitrogênio que, misturada ao gás carbônico, mantém o sabor da bebida. Essa cápsula também tem a função de compactar as bolinhas de gás da cerveja, levando todo o gás para o colarinho, tornando-o denso e cremoso. A cápsula de nitrogênio libera o gás no momento em que a lata é aberta. Por isso, aconselha-se que o consumo de Guinness não seja feito diretamente na lata, mas colocando toda a bebida em um pint. Assim, consegue-se o mesmo efeito visual e a qualidade de um chope Guinness.

A marca investe em novos rótulos para conquistar o paladar de consumidores que gostam de cervejas diferenciadas. Essa estratégia vai continuar? Existem novos lançamentos em vista?
Recentemente, lançamos no Brasil duas cervejas produzidas pela Guinness na Irlanda: a premiada irish lager Harp e a cremosa irish red ale Kilkenny. Essas marcas já existem há muito tempo na Irlanda e em diversas partes do mundo, sendo cervejas já muito apreciadas pelos consumidores. Os brasileiros estão começando a se interessar por cervejas especiais, premium, que se degustam. Harp e Kilkenny foram lançadas para, com a Guinness stout, oferecer ao consumidor três produtos bem distintos e com a qualidade Guinness. No Brasil, as três cervejas juntas formam o "clã Guinness".

Há planos de lançamento de cerveja sem álcool, com o crescente rigor das leis de trânsito ao redor do mundo?
Atuamos muito fortemente na propagação do consumo responsável de bebidas alcoólicas. Acreditamos que a conscientização e a educação das pessoas sobre o assunto é a principal solução para os problemas que estamos tendo com o consumo inadequado. No momento, trabalhamos mais nessa conscientização do que na criação de uma cervejasem álcool.

20 de outubro de 2008

Futebol e diversão

Sábado no Parque Villa Lobos. Após uma corridinha sem-vergonha, encontro um bom motivo pra parar com o malogrado exercício e fazer algo mais interessante. Percebo uma algazarra entre as árvores. Sim, algazarra das grandes. Olho com mais atenção e vejo que se trata de um punhado de crianças jogando futebol. A gritaria fica por conta de seus pais, tias, babás e cia.

Chego perto do campinho, montado em um dos gramados do parque. Não é um mero bate-bola improvisado. Há um campinho montado, com fitas demarcando seus limites e dois golzinhos à la futebol na praia. Cinco guris pra cada lado, com mais ou menos 5-7 anos de idade, quase todos da mesma altura. Dois instrutores orientam a rapaziadinha.

Fazia tempo que eu não via guris dessa idade jogando futebol. À primeira olhada, a sensação que bate é a nostalgia da época em que disputar partidas assim era algo intensamente disputado, cada jogada era épica. Eram tempos em que olhar os adultos jogar servia de lição sobre como se comportar com a bola, quando gritar, quando dar uma de machão, quando tirar um sarro.

Olho mais um pouco e fico tentando me lembrar a partir de quando a gente começa a ter mais noções de jogar bola. É engraçado ver a molecada correr em bloco atrás de todas as jogadas, tentar cabecear mesmo quando a bola passa a três metros de altura, tentar trocar passes sempre de primeira. Por outro lado, a obediência da maioria nessa idade é praticamente militar. O que os instrutores falam é lei absoluta, mesmo para os mais afoitos. Todos os "volta pra defender!", "agora pro ataque!" e "tenta chutar de longe!" eram obedecidos à risca – ou ao menos tentados.

Nessa idade também ainda não acontecem as típicas revoltas adolescentes contra os pais - e aí eles aproveitam para corujar à vontade e perder parte do semancol. Enquanto crianças, uma penca de mamães que não sabe nem quem é o goleiro se esgoela incentivando seus rebentos. "Vaaaaai!!!", "Corrrrrre!!", "Chuta, meu beeeemm!". Os papais, por sua vez, conseguem ser mais constrangedores ainda. Os meninos mal sabem o que é lado esquerdo e direito ainda, mas os marmanjos comportam-se como Felipões e Luxemburgos com parafusos a menos, sugerindo lances que nem pequenos Pelés poderiam executar. "Dá um peixinho na próxima", sugeriu um deles no sábado, após o filho perder a oportunidade de abrir o placar.

No final das contas, o time azul ganhou do de vermelho por 4 a 2. Em tempos de escolinhas de futebol society por todos os lados, nas quais as crianças aprendem a ser competitivas, malandras e robotizadas desde a puberdade, o clássico do último sábado no Villa Lobos mostrou aquilo que o futebol deve ser para crianças: uma mera atividade física divertida e lúdica, capaz de ensinar noções de companheirismo e de despertar a paixão pelo mais bacana e acessível entre todos os esportes.

19 de outubro de 2008

Efeméride

Vinicius faria 95 anos se estivesse vivo. Pra não passar em branco, a homenagem de Toquinho e Chico a ele:

17 de outubro de 2008

Casagrande de volta

Fiquei bem feliz quando li a reportagem abaixo, publicada no Terra, e resolvi postá-la por aqui. Além de Casagrande ser um bom comentarista esportivo, sempre fui com a cara dele, questão de empatia mesmo. E, associando sua imagem ao futebol e à nostalgia, Casão é responsável por uma de minhas primeiras e boas lembranças futebolísticas. Apesar de sua ligação incontestável com o Corinthians, lembro muito bem de um São Paulo 4 x 1 Santos, no qual ele marcou dois gols pelo Tricolor, em sua curta passagem por empréstimo pelos lados do Morumbi.

Obs: Leia a reportagem até o final e será recompensado com uma bela tirada humorística do Casão.

Casagrande: "Não achava que era doença"

Um ano após ser internado, contra a vontade, em uma clínica para dependentes químicos em São Paulo, Walter Casagrande Júnior voltou a aparecer em público na última quinta-feira e fez um relato sincero e emocionado de sua luta contra as drogas em entrevista a um programa da TV Globo, que irá ao ar já na madrugada deste domingo. Muitas vezes, o desejo de usar drogas era mais forte do que a própria vontade do ex-jogador de Corinthians, Flamengo, São Paulo e Seleção Brasileira.

"Eu me injetava chorando, sabia que não podia fazer aquilo, mas não resistia", disse. "Cheirava e me injetava, mas não achava que isso era doença. Pensava que podia parar, mas a dependência química é progressiva, fatal e incurável. Vou ter que conviver com ela até o fim da minha vida, mas nunca mais quero ter uma overdose na frente do meu filho de 12 anos", completou.

Comentarista licenciado da própria emissora, Casagrande contou em detalhes o drama de sua doença, da qual só tomou conhecimento após capotar com seu carro, em setembro do ano passado. "Tenho 1,91m e dei entrada no hospital pesando 70 quilos, cheio de marcas de picadas nos braços. Quando acordei do coma, três dias depois, estava internado", contou.

O comentarista foi mantido na clínica Greenwood, em Itapecirica da Serra, por determinação de seu filho mais velho, Victor Hugo, 22 anos. Durante oito meses, o ex-jogador não teve contato algum com parentes ou amigos e recebeu alta somente há duas semanas.

Mas ainda está reaprendendo a usar sua liberdade. "Nos quatro primeiros meses, eu tentei lutar contra o tratamento. Meu filho me bancou lá, disse que eu não sairia, e me salvou. Sou um cara pacato, mas tenho um poder de autodestruição enorme", afirmou.

Casagrande contou que começou a usar drogas ainda na adolescência. "Venho de uma geração em que os ídolos morreram de overdose. Admirava Jim Morrison. Quando comecei, não foi com maconha. Eu usava cocaína e heroína", disse.

Até sua internação, em setembro de 2007, Casagrande já havia sofrido quatro overdoses. Durante o período como jogador, porém, ele garante que soube segurar a onda. "Fiquei oito anos longe das drogas, lá na Itália. Antes, aqui no Brasil, eu usava maconha e cocaína na véspera dos jogos, gostava da sensação de prazer. Mas quando você pára de jogar, no dia seguinte não é ninguém. Senti falta daquela adrenalina, queria de volta a emoção dos estádios cheios. Foi quando caí de cabeça nas drogas", afirmou.

Em janeiro de 2006, Casagrande se internou voluntariamente por 40 dias. "Há um tempo, eu havia começado a perder o controle da minha vida, da minha disciplina, e fui me distanciando da família, dos amigos. No trabalho eu também já encontrava dificuldades e estava fora da Copa do Mundo da Alemanha naquela época. Batalhei muito, fiquei sem usar drogas e consegui ir à Copa, para comentar os jogos", lembrou.

Na volta para casa, no entanto, ele teve uma recaída assistindo ao DVD de Ray, filme sobre a vida do músico Ray Charles, que teve uma longa relação com a heroína. "A dependência química é sutil, vem de repente. Vi o personagem na fissura e pensei: quero me injetar agora", contou o ex-jogador.

Casagrande, porém, não ficou à vontade para entrar no debate sobre a descriminalização das drogas. "Eu sempre fui a favor, mas não acho que seja uma prioridade para o Brasil, neste momento. Mas também não vou me engajar em projeto algum contra as drogas; seria hipócrita de minha parte falar contra isso. O que posso fazer é incentivar a internação e o esclarecimento sobre a doença da dependência química", afirmou.

O comentarista foi o primeiro dos entrevistados do programa. A atriz Malu Mader, que entrou em seguida, é sua amiga de longa data e não escondeu a alegria por reencontrá-lo. "Não sabia que você estaria aqui, foi um depoimento emocionante, contundente e muito útil", comentou a atriz.
A banda Skank prestou, logo depois, uma homenagem ao ex-jogador: enquanto tocava "É uma Partida de Futebol", um telão exibia gols de Casagrande jogando pelo Flamengo, Corinthians e Seleção. "Você é o único que conseguiu unir rock e futebol, Casão", brincou o vocalista da banda, Samuel Rosa.

Há duas semanas de alta, Casagrande ainda não se acostumou à velha nova rotina. "Fiquei um ano trancado, sem ver ninguém, e a cada pessoa que encontro sinto uma emoção muito forte. Tenho que ir devagar. Até agora, só saí de casa para ver um show da Rita Lee e para vir aqui", disse, coberto de aplausos da platéia jovem do programa.

"Só saio para jantar com psicólogos. Eu ainda preciso deles", disse. Prontamente, foi convidado por Malu Mader para jantar com ela e o marido, o guitarrista Toni Bellotto, dos Titãs.
Até o fim do ano, há possibilidade de que volte a comentar jogos para a TV, mas ele não quer apressar as coisas. Ainda freqüenta a clínica diariamente, das 12h30 às 17h, onde encontra outros dependentes químicos e uma psicóloga.

Mas mostrou que está com o senso crítico afiadíssimo ao responder à pergunta de um rapaz, que queria saber sobre o atual time do Corinthians, que disputa a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. "Você quer saber de drogas, né?", brincou.

16 de outubro de 2008

André estava certo...

Meu chapa André Toso fez um texto no mês passado espinafrando "Os Desafinados". Demorei pra assistir ao filme e tinha a otimista expectativa de que o amigo jornalista tivesse exagerado na tinta. Não exagerou. Reli o texto hoje e ri bastante de sua acidez. Assino embaixo, com um único adendo: a atuação de Jair Oliveira (de quem até gosto como músico, talvez pela nostalgia do Balão Mágico, talvez por admirar seu pai) chega a ser engraçada, de tão ruim.

Sem mais a dizer, reproduzo aqui o texto do André:

É louvável que um diretor consiga realizar um filme tão ruim quanto “Os Desafinados”. Principalmente quando aborda uma das histórias mais fascinantes da cultura brasileira. É ainda mais louvável conseguir tratar de temas como bossa nova, cinema novo e ditadura de maneira tão rasa e desnorteada. A miscelânea do roteiro é tão absurda que mistura eventos como o histórico show do Carnegie Hall, em Nova York, nos anos 60, com o sumiço do pianista brasileiro Tenório Jr. na Argentina, em meados de 1970. Os acontecimentos, sem nenhum tipo de relação temporal, desdobram-se na tela jogados ao vento. O diretor utilizou as histórias a partir da segunda metade do século XX que julgava mais interessantes e resumiu em duas horas de filme. E essas duas horas parecem se multiplicar: o ritmo do filme é pavoroso, da metade para frente o enredo se arrasta e a vontade é sair do cinema.

Além disso, os clichês estão presentes em todos os momentos. Quem conhece minimamente a bossa nova sairá do cinema chocado diante de tamanho lixo. Aqueles que nunca ouviram falar podem se encantar falsamente com a história, já que é realmente tarefa das mais árduas destruir um período tão rico. Mas Walter Lima Jr. foi impiedoso e conseguiu estupidificar o movimento por completo.

Algumas coisas quase se salvam no meio da confusão. O personagem de Selton Mello é interessante e cria algumas situações inteligentes e bem sacadas, Cláudia Abreu - apesar da atuação mediana - está absolutamente linda. Algumas de suas aparições são desconcertantes. Mas sua personagem é tão besta e artificial quanto a de Rodrigo Santoro. Os dois protagonizam um romance água com açúcar dos mais ralos e chatos que me lembro. A bossa nova é o pano de fundo de todo esse melodrama insosso. O pior é a tentativa canalha de parecer politicamente incorreto e de esquerda: é Globo Filmes, o que eu esperava também, não? Resultado: o pior filme que assisti neste ano e uma aula de como não se fazer um roteiro.

14 de outubro de 2008

Flor da idade

Faz uns três dias que ouço de forma insistente a mesma música. E quero ouvir mais vezes. Talvez escrevendo sobre ela isso passe.

Nunca fui muito fã de Drummond e continuo não sendo, apesar de, obviamente, reconhecê-lo como um dos maiores poetas da nossa língua. É questão de gosto mesmo, estilo, talvez ignorância, sei lá... Fico mais com João Cabral e Vinícius.

As frases "enrolatórias" (ou o chamado nariz-de-cera jornalístico) antecedem, mais uma vez, um texto sobre Chico, o Buarque de Hollanda. Explico mais abaixo:

Semana retrasada fui rever o show da Mônica Salmaso, a respeito do qual já escrevi por aqui no ano passado. Muito bom de novo (talvez até melhor, mas não é sobre isso o texto) e com uma novidade: além das 14 músicas do disco sobre a obra do Chico, ela emendou também "Flor da idade", composta em 1973 e, até onde eu saiba, só registrada no show dele com a Bethânia, de 1975.

O que sempre chama a atenção de quem ouve a música é a óbvia homenagem, referência ou qualquer outra palavra que se queira dar ao poema "Quadrilha" do Drummond, reproduzido abaixo:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

Muito bem. "Flor da idade", em minha modesta opinião, é 3254 vezes melhor. Mas isso é o de menos. O que me fez parar um pouco e escrever alguma coisa a respeito da música veio, inicialmente, do modo como a Salmaso cantou no show. De forma clara, quase pausada, sobre um arranjo bem diferente do original. E aí é que finalmente eu prestei atenção no quão magistral é a letra, por unir a homenagem a Drummond e fazer um retrato muito legal de uma fase de nossas vidas a partir de uma série de jogos de palavras e aliterações absurdas.

Eis a letra:

A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor


Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor


Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor


Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha


Proponho um exercício bobo: pegue os dois versos a seguir e leia-os em voz alta:

"A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia" e "Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua". Conseguiu na boa, sem gaguejar? Agora ouça a música e tente cantar junto com Chico. Conseguiu também? Então ouça mais umas 33 vezes e fique se lembrando da primeira festa, da primeira fresta, do primeiro copo, do primeiro corpo...


26 de setembro de 2008

Grande homenagem

Parece que a Diesel vai fazer uma festa de 30 anos em várias cidades do mundo. Pra divulgar o evento, ela fez uma campanha de marketing viral, na divulga por meio de um vídeo a data e outros detalhes do convescote.

Até aí, beleza. Mas o vídeo de pouco mais de um minuto feito pelos caras é algo divertido demais. Trata-se de uma espécie de homenagem aos pornôs dos anos 70, década em que a marca grã-fina foi criada. Pra quem é fã do gênero ou não, é um trabalho que garante uma porção de risadas. Veja clicando aqui.

20 de setembro de 2008

Rico, pobre ou dá pra viver?

Uma das pegadinhas verbais mais tontas da época de criança, quando estamos aprendendo certas malícias, era virar pro amiguinho e perguntar: "Seu pai é rico, pobre ou dá pra viver?". Como quase ninguém se assume rico e poucos se consideram realmente pobres, os mais distraídos sempre falavam a terceira opção, resposta aguardada pra que todos pudessem dar risada e sair falando que o pai do Fulano dava pra poder viver.

Nostalgia à parte, em tempos de evolução econômica no país, pouca gente sabe realmente em que faixa econômica está. A última vez em que pensei nisso foi ao responder um questionário socio-econômico na primeira faculdade, cujo resultado apontava que na minha classe havia três alunos da classe A+.

Conceitos que parecem tipo sanguíneo à parte, a impressão que tenho é a de que esses medidores andam meio defasados. Nos últimos meses, muito se tem falado sobre a imensa quantidade de brasileiros que deixaram as classes D e E para ascender à C, formando a chamada "nova classe média", que pode comprar celular, assinar TV a cabo, ter seu carrinho, ir pra praia com freqüência etc etc etc.

Falo tudo isso pra mostrar algo interessante que vi há pouco. O pesquisador Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, produziu um simulador que, a partir de três dados simples (cidade em que vive, renda familiar e número de pessoas sob o mesmo teto), mostra a quantidade de brasileiros em pior situação que a sua.

Anda insatisfeito com o que ganha? Pois saiba que uma família de quatro pessoas em São Paulo, cuja renda seja de R$ 4000,00, está em melhor situação do que outros 89% no país. Para saber qual sua situação, clique aqui.

18 de setembro de 2008

25 coisas que você não pode morrer sem tomar conhecimento

A lista é divertida e foi chupinhada do Caixa PreTTA. No entanto, sou testemunha de que o item 9 está errado.

1 - O nome completo do Pato Donald é Donald Fauntleroy Duck.
2 - Em 1997, as linhas aéreas americanas economizaram US$ 40.000 eliminando uma azeitona de cada salada.
3 - Uma girafa pode limpar suas próprias orelhas com a língua.
4 - Milhões de árvores no mundo são plantadas acidentalmente por esquilos que enterram nozes e não lembram onde eles as esconderam.
5 - Comer uma maçã é mais eficiente que tomar café para se manter acordado.
6 - As formigas se espreguiçam pela manhã quando acordam.
7 - As escovas de dente azuis são mais usadas que as vermelhas.
8 - O porco é o único animal que se queima com o sol além do homem.
9 - Ninguém consegue lamber o próprio cotovelo, é impossível tocá-lo com a própria língua.
10 - Só um alimento não se deteriora: o mel.
11 - Os golfinhos dormem com um olho aberto.
12 - Um terço de todo o sorvete vendido no mundo é de baunilha.
13 - As unhas da mão crescem aproximadamente quatro vezes mais rápido que as unhas do pé.
14 - O olho do avestruz é maior do que seu cérebro.
15 - Os destros vivem, em média, nove anos mais que os canhotos.
16 - O “quac” de um pato não produz eco, e ninguém sabe porquê.
17 - O músculo mais potente do corpo humano é a língua.
18 - É impossível espirrar com os olhos abertos.
19 - “J” é a única letra que não aparece na tabela periódica.
20 - Uma gota de óleo torna 25 litros de água imprópria para o consumo.
21 - Os chimpanzés e os golfinhos são os únicos animais capazes de se reconhecer na frente de um espelho.
22 - Rir durante o dia faz com que você durma melhor à noite.
23 - 40% dos telespectadores do Jornal Nacional dão boa-noite ao William Bonner no final.
24 - As abelhas voam mesmo sem ter um corpo aerodinâmico.
25 - Aproximadamente 70 % das pessoas que lêem isto, tentam lamber o cotovelo.

10 de setembro de 2008

U2 em três dimensões

Fica em cartaz em poucas salas no Brasil até 9 de outubro o registro em 3D no mais recente show do U2, "Vertigo", cuja passagem pelo Brasil se deu no começo de 2006. Só tenho lembranças bacanas da apresentação no Morumbi e essa sensação ficou reforçada ao assistir ao filme.

Com o tradicional óculos para filmes em terceira dimensão, não é nada difícil se sentir realmente como um dos milhares que acompanharam in loco o show, sem deixar de sentir até mesmo um pouco da vertigem proposta no título da turnê. Quando a câmera põe o zoom bem pertinho do vocalista Bono, a metade feminina do cinema suspirou profundamente, tamanha a proximidade e o nível de realismo propiciado pelas imagens.

Alguns vêm chamando esse registro como o primeiro "filme-concerto" da história do cinema. Uma rápida pesquisa me mostra que foram utilizadas mais de 700 horas de gravação para a edição final, condensada em menos de 90 minutos de canções que vão das baladas românticas a uma pauleira moderada, passando por letras mais politizadas e outras que exaltam um amor rasgado e doído.

No final das contas, os produtores dos filmes selecionaram apenas imagens de shows ocorridos na Austrália, Chile, Argentina, México e Brasil. Nas cenas brasileiras, um orgulho inevitável. As tomadas mais amplas levam aos quatro cantos mundo o maior dos orgulhos de todo bom são-paulino, estampado nas arquibancadas do Morumbi: "São Paulo - Tricampeão mundial de futebol".

9 de setembro de 2008

Cerveja levou o ser humano a se tornar agricultor

O texto é da Efe e explica grande parte do comportamento humano...

O homem se tornou sedentário e agricultor há cerca de dez mil anos, iniciando a Revolução Neolítica, para beber cerveja e se embriagar, e não com a finalidade de melhorar ou garantir sua alimentação. A afirmação foi feita pelo biólogo e historiador natural alemão Josef H. Reichholf em seu novo livro "Warum die Menschen sesshaft wurden" ("Por que os homens se tornaram sedentários", em tradução livre).

A obra começou a ser vendida hoje nas livrarias da Alemanha e explica as causas da revolução que deu lugar à formação de povos e religiões. O acadêmico da Universidade Técnica de Munique considera errada a teoria de que a humanidade começou a cultivar plantas, abandonou a vida nômade e se estabeleceu de maneira permanente em um lugar determinado para se alimentar melhor.


Essa visão habitual confunde causas e conseqüências. Para que os caçadores e agricultores abandonassem sua forma de vida e alimentação tradicional teve de acontecer alguma vantagem inicial", explica, e ressalta que no início "o cultivo de plantas não trouxe consigo nenhuma vantagem sobressalente para a sobrevivência".


Trabalho demais

Reichholf acrescenta que as colheitas iniciais eram muito pequenas e o cultivo da terra era muito trabalhoso, o que não garantia a sobrevivência de um povo apenas da agricultura. Ele afirma que o homem neolítico continuou caçando e colhendo para subsistir. Nesse sentido, classifica igualmente de errada a teoria de que nas primeiras regiões de assentamento sedentário da humanidade, que vão do Egito à Mesopotâmia, havia pouca caça e muita vegetação.


"Era totalmente diferente", assegura o especialista, que considera que essas regiões eram ricas em caça, por isso não havia necessidade de abandonar essa forma de subsistência, e julga absurda a teoria de que uma região possa ser rica em frutos e pobre em animais selvagens ao mesmo tempo.

"Ao contrário, eu afirmo que a agricultura surgiu de uma situação de abundância. A humanidade experimentou com o cultivo de cereais e utilizou o grão como complemento alimentício. A intenção inicial não era fazer pão com o grão, mas fabricar cerveja mediante sua fermentação", disse Reichholf à imprensa na apresentação do livro. O alemão assegura que a humanidade sempre sentiu necessidade de alcançar estados de embriaguez com drogas naturais que "transmitem a sensação de transcendência, de abandono do próprio corpo", conclui.

5 de setembro de 2008

Pérolas do orkut


Bastante gente já conhece o site, que a cada dia ganha dezenas de novas contribuições. A foto aqui mostra como há verdadeiros gênios na net. O endereço é http://www.perolasdoorkut.com.br/

As 27 coisas que as pessoas aprendem com filmes pornôs


Desculpem a linguagem chula, mas estou apenas copiando e colando um e-mail engraçado que recebi. Pena não saber a origem.


1. Todas as mulheres vão pra cama de salto alto.
2. Homens nunca são impotentes.
3. Quando for chupar uma mulher, dez segundos são mais do que suficientes.
4. Se uma mulher for pega se masturbando por um homem estranho, ela não vai gritar de vergonha, mas vai insistir pra que ele catraque com ela.
5. Mulheres sorriem com gosto depois que homens enchem a cara delas de esperma.
6. Mulheres curtem sexo com homens feios e de meia-idade.
7. Mulheres gemem incontrolavelmente quando estão fazendo um boquete.
8. Mulheres sempre gozam quando o cara goza.
9. Todas as mulheres gozam fazendo escândalo.
10. As pessoas da década de 70 só conseguiam gozar se estivesse rolando um solo de guitarra ao fundo.
11. Aqueles peitos são todos de verdade.
12. Uma prática sexual comum para um homem é pegar seu pau em estado “meia-bomba” e batê-lo na bunda da mulher.
13. Homens sempre gritam “OH, YEAH!” quando gozam.
14. Se são dois caras em uma mina, eles se cumprimentam no final (e a mulher não fica com nojo!).
15. Dupla penetração faz as mulheres sorrirem.
16. Não existem homens asiáticos.
17. Se você encontrar um casal de amigos seus catracando no quintal, o cara não vai te cobrir de porrada se você chegar e enfiar o pau na boca da moçoila.
18. Sim, tem uma história.
19. Quando está comendo a moça por trás, o homem consegue excitar a mulher dando vários tapas na sua bunda.
20. Enfermeiras fazem boquetes para seus pacientes.
21. Os homens sempre tiram antes de gozar.
22. Quando sua namorada te pegar ganhando um boquete da melhor amiga dela, ela só vai emputecer por um momento… e depois vai entrar na suruba.
23. Mulheres nunca têm dor de cabeça… ou menstruação.
24. Quando uma mulher está fazendo um boquete para um cara, sempre é bom que ele diga “Isso, chupa” pra que ela não se esqueça do que tá fazendo.
25. Cus sempre são limpos.
26. Um homem gozar na bunda de uma mulher satisfaz ambas as partes envolvidas no processo.
27. Mulheres sempre se surpreendem.

3 de setembro de 2008

O Brasil e seu passado musical

Há no país duas tendências no país a respeito de seu passado musical que me incomodam. A primeira – e mais grave – é deixar que verdadeiros tesouros caiam no esquecimento. A segunda é atribuir aos poucos personagens que têm suas obras homenageadas um grau de genialidade exagerado.

Marisa Monte diz que gosta de muita coisa sobre música, mas poucas fazem com que ela se emocione tanto como a Velha Guarda da Portela. Paulinho da Viola, ao falar sobre os talentosos velhinhos, comenta que o mais especial é vê-los juntos, fazendo o que gostam, exaltando o samba, sua escola e seu cotidiano. Opiniões diferentes de dois ícones que louvam o mesmo objeto.
Opiniões que dão caldo para uma boa discussão

O diálogo de Marisa e Paulinho se dá no documentário sobre a Velha Guarda da Portela, "O mistério do samba", em cartaz nos cinemas. Muita gente tem falado que o filme é o "Buena Vista Social Club" brasileiro e a comparação é por muitas vezes realmente inevitável. Mas, com todo o respeito aos velhinhos portelenses, fico com os cubanos nessa briga.

Mas falemos tão-somente de música brasileira – a grandeza da música cubana é assunto para outro texto. Durante o filme, Paulinho da Viola volta a fazer um comentário muito feliz quando fala que não há muito o que explicar, e sim a sentir, sobre a Velha Guarda. É nesse ponto que vejo algo bem interessante. É esse estar junto que faz do grupo algo tão especial e carismático – e é sua simplicidade que o torna riquíssimo musicalmente. Não me desce pela goela ouvir elogios quase despudorados sobre seu talento (que é grande, obviamente), como se suas composições estivessem à altura de um Cartola ou – que os deuses da música me perdoem – de um Noel Rosa.

Suspeito que o próprio Paulinho tenha noção dessa diferença (também acentuada na comparação com sua própria obra), mas nem com um revólver na cabeça falaria algo assim, de modo tão claro, muito menos em um filme em homenagem à Velha Guarda de sua escola de coração. Mas é justamente sob essa análise e a partir da emoção sentida por Marisa Monte que os simpáticos velhinhos devem ser reverenciados. Atribuir-lhes mais talento ou importância é confundir resgate histórico com idolatria, algo levado a cabo por alguns e que, se fosse seguido pelos diretores do filme, jogaria por terra o belo esforço documental da obra.