25 de agosto de 2008

Pitacos sobre a Bolívia e o Paraguai






Já faz mais de uma semana que voltei de uma viagem à Bolívia e ao Paraguai, a trabalho. Aniversário sem comemorar à parte, foi uma experiência bacana, cheia de pequenas descobertas geográficas e sociais bem marcantes, apesar de quase não ter turistado em nenhum dos dois países.

O primeiro destino foi La Paz, situada a mais ou menos 3.600m de altitude. Seu aeroporto fica em El Alto, a mais de 4000m. No desembarque, ao lado das esteiras de bagagens, o recém-chegado já vê dois postos médicos repletos de tanques de oxigênio, sinal bem claro do que a rarefação do ar a tal altura pode causar.

Dizem que no verão é difícil La Paz ter temperaturas acima dos 22ºC. Na primeira semana de agosto, fazia cerca de 3ºC à noite, felizmente com pouco vento. De início, pensei que só o frio causaria problema, que reagiria bem à altitude. De fato, não houve nenhum problema sério, mas logo na primeira noite bateu uma forte dor de cabeça, além de sede (muita sede) e um pouco de mal-estar. Subir degraus com pressa também não é tarefa das mais agradáveis e causa respiração bem ofegante.

Transporte

Pela manhã, no centro da cidade, o que mais chama a atenção é seu caótico trânsito, no qual taxistas raramente dão setas, ônibus param em qualquer lugar e todos buzinam feito loucos, deixando os brasileiros muito atrás nesse quesito.

Táxis são extremamente baratos, levando em conta o padrão de vida de um turista brasileiro. Qualquer corrida por La Paz não me custou mais do que 10 pesos bolivianos, sendo que US$ 1 equivale a Bs 7.

A idade dos ônibus que circulam por La Paz chama muito a atenção também. A primeira foto dá pra passar um pouco dessa descrição...

Comida e coca

Já haviam me alertado para a quantidade de óleo que é colocada na comida feita em La Paz. De fato, chega a ser meio enjoativo até, mas dizem que serve para combater os efeitos da altitude. Ovos são freqüentes em praticamente todas as refeições, inclusive em quase todos os lanches.

Os chás de coca são gostosos, mas nada de outro mundo - pelo menos os industrializados são assim. A experiência de mascar folha de coca é mais interessante, pois ela realmente ajuda a acabar com o mal-estar da altitude, embora tenha provocado uma ausência de fome no meu organismo durante toda a viagem, inclusive nos dias após a saída da Bolívia.

Importante falar também da qualidade da cerveja Paceña, vencedora de vários prêmios na Europa. De cor mais escura do que nossas pilsen e de gosto mais amargo, é facilmente achada em qualquer restaurante por preços que nunca ultrapassam os 4 bolivianos.


Paisagem

Dizem que La Paz cresceu em um antigo vulcão. A impressão que a geografia da cidade causa é exatamente essa. Montanhas por todos os lados, sendo que essas montanhas também são cercadas por outras, mais distantes, cujos picos acima dos 5000m de altitude passam a maior parte do ano cobertos de neve.

Acho que as fotos 2 e 3 ajudam a ter uma idéia dessa paisagem...

Povo e política

As manifestações de apoio ao presidente Evo Morales eram visíveis por todo lado em La Paz, em muros, faixas, bandeiras... Conversando com taxistas, vendedores e garçons, essa impressão de apoio ficou bem reforçada, da mesma forma como foi marcante a impressão causada pela boa educação e simpatia do povo de La Paz. Pessoas ao mesmo tempo atenciosas, humildes e capazes de se expressar muito bem, quase todas de ascendência indígena – e, talvez por isso mesmo, um retrato dessa mescla de subserviência e esforço para esclarecer seus pontos de vista, demonstrar sua cultura e costumes.

"Foi por medo de avião..."

Ando de avião há pouco tempo, quase sempre a trabalho, e nunca havia tido motivos para sentir medo de voar. O trecho de volta, entre La Paz e Santa Cruz de la Sierra, acabou com esse orgulho.

Na chegada, à noite, não pude ver a paisagem de chegada à La Paz. Na volta, à tarde, foi possível contemplar (a palavra é essa, sem medo de parecer exagerado!) a geografia fantástica da Bolívia. O sentimento, na janela do avião, era de êxtase por passar ao lado dos Andes e de cagaço pela sensação de que um leve descuido do piloto significaria a chance de protagonizar um novo filme como "Vivos".

As fotos 4 e 5, tiradas do avião, pertinho de sua asa esquerda, ajudam a entender essa visão sensacional...

Santa Cruz

Sair de quase 0ºC e chegar a uma cidade com mais de 30ºC não é experiência das mais agradáveis. O organismo reclama e pede água de modo incessante. Não ser tão bem tratado como em La Paz, a geografia semelhante à de qualquer cidade interiorana do Brasil e o clima político reacionário resumem a passagem pelo segundo destino na Bolívia.

Assunção

A capital paraguaia é como se fosse uma extensão do território brasileiro. Carros parecidos, transporte, referências futebolísticas por todo lado, churrascarias, periferia abandonada, mulheres com corpo de cariocas, shoppings com branquelos afetados e endinheirados, muita sujeira nas ruas e limpadores de vidro nos principais faróis.




Algo em Assunção, porém, foi muito parecido com uma situação ocorrida em La Paz. Na capital boliviana, na noite após a o referendo que manteve Evo no cargo, me juntei aos milhares que esperavam pelo discurso de Evo. No Paraguai, fiz o mesmo, à espera de Fernando Lugo. Nas duas ocasiões, pude ouvir os hinos dos dois países ao lado de pessoas simples, que cantavam com orgulho, com paixão, até com um pouco de raiva as respectivas letras. E, sem vergonha de ser piegas, me emocionei, de verdade, como nunca antes ao ouvir quaisquer hinos, nem mesmo o brasileiro, nem mesmo o francês, cuja melodia é a minha predileta. Talvez tenha sido só a catarse, talvez a sensação de que algo vai mudando aos poucos em parte do hemisfério sul. A conferir...

19 de agosto de 2008

El Pibe, como sempre

Devendo uns comentários por aqui sobre a viagem à Bolívia e ao Paraguai, não resisto em colocar um comentário pertinente de Maradona sobre o Brasil x Argentina de hoje. El Pibe de Oro vira-e-mexe faz alguma de suas cagadas, mas quando opina sobre algo costuma dar bolas dentro, bem pertinentes.

Aí vai mais uma, quentinha, após os 3 a 0: "Há muito tempo que não vejo um Brasil tão mesquinho e tão defensivo", disse o argentino, após assistir da tribuna de honra à vitória.

Já tem gente preferindo ver o Celso Roth na seleção...