30 de novembro de 2011

Tênis: as melhores jogadas de 2011

A Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) divulgou nesta semana um vídeo de seis minutos com as oito melhores jogadas de 2011. Djokovic e Nadal – merecidamente, pelo ano que fizeram – aparecem com duas jogadas cada. Há também uma do Federer, uma do Ferrer, uma do López e uma do duplista Bob Bryan.

A do Nadal no saibro, contra o Djokovic, é minha preferida. Confira abaixo:

28 de novembro de 2011

Abreviações

Dia desses, ao ver que o sobrinho de um amigo terminara seu processo de alfabetização, me peguei pensando em como cada criança tem suas dificuldades nessa fase fundamental. Cria-se um verdadeiro novo mundo diante dos olhos dos pequenos. Aquilo que até poucos meses atrás parecia como um código indecifrável passa a ter sentido. E, quando o sentido não surge, o bê-á-bá permite que apareçam inúmeras interrogações em seus pequenos (e tão borbulhantes!) cérebros.

Até hoje é frequente eu me flagrar com um sorriso ao me deparar com algumas palavras que me pareciam indecifráveis. Nem sempre os pais, algum adulto ou colegas mais velhos estão por perto para ajudar. Desde os quatro ou cinco anos até o início da adolescência eu apresentava certa incompreensão em relação às abreviaturas surgiam pela cidade, nos livros, nas propagandas de TV, gibis e em tudo que estivesse cheio de letras e estivesse ao alcance dos meus olhos.

A primeira delas sem dúvida foi a palavra “limitada”, sempre ao final do nome de empresas, na forma de “Ltda.”, quase sempre acompanhada do indefectível “Cia.”. Ao passear de carro ou de ônibus com o rosto grudado no vidro da janela, eu fazia questão de ler baixinho cada palavra que aparecesse pela frente. E em quase todos os passeios ela aparecia como “lítida”, seguida pelo ponto final que certamente encerrava a frase.

Em uma determinada linha de ônibus também aparecia outra abreviação matreira. Durante as intermináveis esperas pelo 6245-Vila Sônia, era comum eu ver passar, com muito mais frequência, o 6253-Parque Ipê (em geral, sem acento). Para economizar espaço, a palavra “parque” sempre vinha escrita de forma abreviada. Até pelo menos os dez anos de idade eu sempre quis saber que bairro era o tal “pique-ipe”, até que apareceu uma menina no colégio que era motivo de chacota por ter que acordar quase de madrugada, por morar nas redondezas do tal parque.

Os gibis da Disney também me confundiram por um bom tempo. Nas histórias do Mickey, especialmente aquelas que se passam em Patópolis e que envolvem tramas detetivescas, era muito comum a figura de um cachorrão chamado Coronel Cintra, parceiro fundamental para que o rato sabido e o simpático Pateta resolvessem seus casos. Nos balões de diálogo, sempre apertados, lá estava sempre o nome do “Cel. Cintra”. Como se tratava de uma figura mais velha, na minha cabeça de recém-alfabetizado tudo era muito claro: assim como meus pais chamavam alguns senhores mais velhos das redondezas pelos nomes de “Seu Pedro” e “Seu Armando”, o senhor do desenho era tão-somente mais um “Seu Cintra” que exigia uma forma mais respeitosa de ser abordado.

Há pouco tempo li que alguns cientistas vinham pensando em fazer uma experiência com um grupo de ao menos cem crianças: alfabetizá-las exclusivamente por meio de computadores, sem ensiná-las a escrever com lápis ou canetas. O mesmo se daria com as operações matemáticas fundamentais. Oficialmente, não surgiu nenhum grupo de estudos ou de pais dispostos a usar cérebros infantis como cobaias pedagógicas, mas não duvido de que em pouco tempo surjam estudos dessa natureza.

Como se daria a busca pelo significado de abreviações para essas crianças? Por meio do corretor do Word? Por uma boa e simples ida ao Google? Imaginar que recorreriam a um mini Aurélio virtual seria muita ingenuidade? Será que haveria tempo o bastante para que uma dúvida dessa ordem martelasse seus pequenos cocurutos? Ou deixariam as interrogações irem embora tão depressa quanto chegaram?

23 de novembro de 2011

Bethânia, Chico e um show histórico

"Rosa dos Ventos"
"Baioque"
"Maninha"
"Roda Viva"
"Cala a Boca Bárbara"
"Tira as Mãos de Mim"
"Cálice"
"Brejo da Cruz"
"Gente Humilde"
"Apesar de Você"
"Gota d'Água"
"Sonho Impossível"
"Minha História"
"Beatriz" (instrumental)
"Terezinha"
"Cotidiano"
"Sem Açúcar"
"Valsinha"
"João e Maria"
"Quem Te Viu, Quem Te Vê"
"A Noite dos Mascarados"
"A Rita"
"Olhos nos Olhos"
"Tatuagem"
"Vida"
"Olê Olá"
"Sem Fantasia" (no telão)
"Todo o Sentimento"
"Não Existe Pecado ao Sul do Equador"
"A Banda"
"Chico Buarque da Mangueira"

Intérprete favorita + compositor predileto + as 31 músicas acima. O texto poderia parar por aqui, sem quaisquer adjetivos adicionais. Mas o show desta terça-feira (22), no Via Funchal, merece umas palavras a mais.

Você pode preferir Elis, Elza Soares, Nara Leão, Monica Salmaso, Beth Carvalho, Elba Ramalho, Fafá de Belém ou qualquer outra cantora que já gravou canções do Chico. Mas, como diz a própria Maria Bethânia, sem qualquer falsa modéstia, ela é a principal intérprete do repertório do maior letrista da história. De longe!

Se mesmo depois de décadas alguém ainda tivesse dúvidas sobre essa verdade, o show desta semana serve para acabar com qualquer discussão. Se por um lado a cantora deu uns tropeços ao errar algumas letras, por outro sua tradicional postura no palco e a interpretação das letras mais densas compensou qualquer deslize.

Bethânia concentrou o espetáculo na produção musical de Chico entre os anos 60-80. “Maninha”, “Gente Humilde”, “Valsinha”, “Sem açúcar” e “Todo o sentimento”, na modesta opinião deste blogueiro preguiçoso, foram os pontos altos do show. Torço para que seu próximo projeto (um disco também só com músicas do Feioso) inclua também temas mais recentes, que anseiam por se tornarem clássicos, assim como o repertório apresentado no histórico espetáculo desta semana.

15 de novembro de 2011

Mário Lago, 100 – compartilhando as “Figueiríadas”

Por uma dessas coincidências, caiu em minhas mãos uma biografia de Mário Lago ("Boemia e política"), cujo centenário de nascimento ocorre na próxima semana, em 26 de novembro. Morto em 2002, sua figura tornou-se mais conhecida para os mais jovens como ator de novelas, mas sua trajetória de vida é riquíssima e está longe de se resumir às aparições na TV Globo.

Mário Lago foi advogado, radialista, letrista de músicas como “Ai, que saudades da Amélia”, militante do PCB durante toda a vida. Quando criança, foi vizinho de muro de Villa-Lobos (!!), em cuja casa teve os primeiros contatos com a música clássica, ensinada pela esposa do grande compositor brasileiro.

O livro de Monica Velloso deixa um pouco a desejar no que diz respeito à fluência da narrativa – a vida de Mário Lago mereceria uma pesquisa mais ampla e um texto mais trabalhado. Mas deixemos de lado as críticas para dar destaque a um detalhe muito bacana da vida do biografado: a verve poética utilizada como contestação política.

Corria o ano de 1979 e já se sabia que João Batista Figueiredo seria o próximo ditador a dar plantão em Brasília. Em meio a um regime militar já enfraquecido e pelo estilo do sucessor de Ernesto Geisel, sua figura tornou-se o alvo preferencial entre os humoristas que contestavam aquele cenário bizarro.

Mário Lago se valeu de amplo espaço no “Pasquim” para publicar o poema “Figueiríadas”. Suas centenas de versos alertavam os caricaturistas, humoristas, compositores e sambistas para a chegada do general ao cargo máximo da República.

Segue abaixo a íntegra do poema, como homenagem aos 100 anos de Mário Lago (já com adiantadas desculpas por eventuais erros cometidos pela digitação apressada, por não ter encontrado em nenhum site tão rico retrato sobre um tragicômico personagem de nossa história):

Os autores das grandes gargalhadas,
Que espremem o bestunto em seu ofício
de distrair o povo com piadas
(usando às vezes tanto de artifício
pra não terem suas obras censuradas),
veem baldado todo o sacrifício,
pois, num terreno em que eram imbatíveis,
surge agora rival dos mais temíveis.

Cale Ziraldo a criatividade;
emudeça Jaguar sua ironia;
Henfil mate a Graúna sem saudade;
fique Max Nunes na cardiologia;
esqueça Anísio a versatilidade;
Jô emagreça de melancolia;
que são todos, de humor triste arremedo
diante do humorista Figueiredo.

Calixto se envergonhe no outro mundo;
Pederneiras morreu? Pois que remorra;
Jota Carlos, chargista vagabundo,
dê o braço a Luiz Peixoto nessa zorra;
Aporelly apodreça lá no fundo.
Quem ainda faz rir cuide e corra,
que eu canto em grande estilo e tom bem alto
o humorista escolhido no Planalto.

De Noel a Chico imploro a bossa;
de João Nogueira um pouco da calçada
que no sangue e na voz (coisa tão nossa!);
De Ivone Lara a voz sempre afinada;
de Morengueira a ginga... caso possa;
de Sargentelli, ao menos emprestada,
uma mulata de cair o queixo
quando liga o motor do remelexo.

Numes dos partideiros, acudi-me!
Ó Xangô da Mangueira, ó Joãozinho
da Pecadora, concordai que eu rime
um canto transbordante de carinho
louvando aquele que seria um crime
deixar-se obrando tanto e tão sozinho.
Ganhe meu verso o céu, bem longe vá
nesta nova edição do Febeapá

O homem provoca riso às cataratas,
grande no hipismo, em tudo vai a trote;
pra fazer rir assume caricatas
posturas de machão, firme o chicote;
confunde porcelana com sucata;
pra ele tudo é igual — samba ou foxtrote;
quer fazer frases mas se enrola e ataca:
diz que gaúcho é gigolô de vaca.

(Zeca Netto pulou da sepultura;
Bento Gonçalves explodiu a cova;
Flores da Cunha fez-se de touro miúra;
os Farroupilhas exigiram prova;
Getúlio quis pôr água na fervura,
disse Honório de Lemos: “uma ova!”
Mas o velho insistiu: “mudem de assunto,
que o AI-5 pega até defunto”.)

Mais enrolado do que uma bobina
ele dá a tudo uma postura enfática:
“Chico Buarque intelectual? Mofina
essa interpretação. Muito pragmática.
Faz bons sambas, vá lá, mas não domina,
tanto quanto eu domino, a matemática.
Nunca fiz versos, peças de teatro,
mas garanto que dois e dois são quatro”.

O argumento talvez seja correto
(em questões de semântica não entro).
Tem cabeça e cabeça não é objeto
só pra chapéu — tem miolo ou ar no centro.
Kissinger, que, em análise, é discreto,
depois de o escutar portas adentro
lhe conferiu belíssimo adjetivo:
“Yes... Figueiredo is... imaginativo”.

E que imaginação tem o louvado!
Sempre a sorrir da forma mais simpática
quer conversar, porém, se contrariado,
perde a estratégia, favas para a tática!
Vai de investida para todo lado
matando logo a pobre gramática,
pois, tendo às pampas físico e saúde
quando se enfeza não explode: explude.

A expulsão pôs em pânico o Dinarte;
Bonifácio engoliu dez isordis;
Francelino explicou por toda a parte:
“diz-se projéteis... diz-se projetis;”
Mas Eurípedes com mais tato e arte,
buscou no Aurélio os pontos para os ii.
“Cadê expulsão?” Caiu em treme-treme.
“Olho no Aurélio, é caso pra IPM.”

Simonsen sorve a gafe em grande uiscada;
para Ueki é nova forma de energia;
mas energia não planificada,
segundo Reis Veloso denuncia;
os das Armas recusam a mancada,
como a nega também a Assessoria;
Paulinelli acha a coisa clara e lata:
“Na agricultura expludo uma batata”.

Reúne-se em segredo o Ministério
Filólogos chamados à socapa...
Urge uma explicação, que o caso é sério,
pode esse expludo atrapalhar o mapa.
Eis surge Armando como um refrigério,
o decreto já pronto, feito à tapa:
“Ato Complementar Extraordinário:
inclua-se expludir no dicionário”.

Mas o caso é mais grave do que pensam
os mortais resignados e infelizes.
Penas só para o Aurélio não compensam.
Essa omissão tem pérfidas raízes,
elos ganhando de Moscou a bênção,
pois, da baderna, ali estão as matrizes.
É tio do Chico! Artigo acrescentado:
“Todo o samba do Chico está cortado!”

(Ô homem, coisa sórdida e rasteira,
nunca alegre no aplauso bem fadado!
Talvez elogiar lhe dê canseira,
perdoar o erro alheio lhe dê enfado.
Com seus botões o Quandt de Oliveira
comenta meio triste e despeitado:
“bobagens dessas tantas eu hei dito
e nem por isso fui o favorito”)

De humor negro é cultor, e dos mais loucos,
pois o humorista perde pra o machão.
Num papo com estudantes, um dos poucos
indagou se era certa a acusação
de ser corrupto. Ai Deus, que gritos roucos
lhe saíram do peito em convulsão:
“Homem que me disser isso na cara
antes do meio do caminho pára”.

Pára como? Algum raio misterioso
que imobilize alguém no todo ou parte?
Que endoide? Do SNI chefe estudioso
pode ter aprendido engenho e arte
com o Ciaiei. Mas diz o perigoso
deus das batalhas, que é Mavorte ou Marte
“Disso eu entendo e nunca falo a esmo.
Quando ele diz pára... é a bola mesmo!”

Piada sinistra! Mas do deus, por certo,
pois o machão até tem sua graça.
Se lhe interessa saber ser esperto,
sabe atirar sorrisos quando passa.
Entre operários, ponto o peito aberto,
chamou um deles pra beber cachaça.
“Muito me honra o convite que recebo
mas não bebo, excelência.” “Pois eu bebo.”

E goela abaixo foi-se a talagada
“Quem for homem no copo me acompanhe!”
E outro copo desceu de uma assentada.
Mas, pra que o convidado não se acanhe,
comenta em sonora gargalhada:
“Feliz você que bebe só champagne.
Depois não argumente com o refrão
que o salário não dá nem para o feijão”.

Piadista contumaz, mais que o Vão Gogo
o SNI defende com cuidado,
negociando... “informação é fogo...
nem tudo para nós era contado... ”
E, em reticências, vai abrindo o jogo:
“Por que ver no SNI sempre o culpado?
Devíamos saber tudo o que havia...
mas... porém... entretanto... todavia...”

Já me cansa a fala e calo o verso...
emperra a máquina, em pavor me agito...
Revolvo os quatro cantos do Universo
buscando tudo por ele já dito.
Devo curvar-me a um fado tão adverso?
Ele não disse mais do que o escrito?
Será, meu Deus, que, para meu desencanto,
tudo se ajusta em tão mirrado canto?

Se em mais de mil estrofes, o colega
Camões cantou a gente lusitana,
por que uma cota igual o céu me nega
se eu canto o de melhor na raça humana?
Se aos píncaros o vate luso chega,
por que meu estro ao dele não se irmana?
Por que ele grande mar – em vaga e risco,
e eu nem de orvalho? De chuvisco?

Numes, correi num voo em meu socorro,
inspirai-me pra prosseguir a história.
Contei tão pouco e, de vergonha, morro
tão magro o poema com que quis a glória!
À imprensa, inda uma vez, doido recorro...
Mas... bolas! Minha meta era ilusória,
pois só agora, impávido e pampeiro,
o “artista” adentrou o picadeiro.

10 de novembro de 2011

Pedaço do Brasil que começa a aparecer – a filha do barbeiro

Diálogo ocorrido hoje, enquanto o barbeiro mandava ver na máquina 2:

- Quando você voltou do Canadá passou um tempo nos Estados Unidos, né?
- Sim, uns dois meses.
- Em qual cidade?
- Rodei pela Califórnia.
- É que minha filha vai na semana que vem pra Flórida, em excursão com a escola.
- Bacana, hein?
- Sim, ela está toda ansiosa. E eu também. Foi meio complicado juntar US$ 2 mil, mas o pessoal tem cortado bastante o cabelo...

Meu barbeiro, depois de uns três anos, finalmente reajustou o preço do seu trabalho: agora ele cobra R$ 13.

8 de novembro de 2011

Pedaço do Brasil real – a senhorinha

Mais de 85% dos brasileiros recebem menos de R$ 1000 por mês. Eles fazem parte do Brasil real.

Diálogo entre minha mãe e uma colega do grupo da terceira idade da igreja do bairro:

— A senhora vai ao passeio do próximo dia 8?
— Não posso. É bem o dia em que recebo minha pensão —, disse a senhorinha.
— Ah, mas a senhora pode receber no dia seguinte, não?
— Posso, mas eu também tenho que pagar a parcela do meu IPTU no dia 8.
— Ué, mas a senhora não pode pagar um dia antes?
— Poder eu posso, mas não tem jeito. São R$ 28 e eu tenho que esperar pelo pagamento pra ter esse dinheiro.

Encerro aqui.