20 de janeiro de 2014

Os novos super-heróis

Reproduzo por aqui um texto bacana, publicado originalmente no "Financial Times" e republicado no Brasil pelo caderno de fim de semana do "Valor Econômico". É uma boa análise do potencial dos atuais jogadores de futebol, em contraposição ao que fizeram alguns dos grandes craques da história.


Os novos super-heróis

Outra noite, estava parado do lado de fora do túnel de acesso dos jogadores ao campo, antes de um jogo do Paris Saint-Germain, quando Zlatan Ibrahimovic passou por mim. Foi intimidante. De perto, o atacante sueco parecia um super-herói: 1,95 metro de altura, um peitoral do tamanho do de Pamela Anderson e o resplendor de alguém que fez seus exercícios, teve alimentação saudável e dormiu a sesta todos os dias durante anos.

Os grandes jogadores de hoje têm uma forma incomparavelmente melhor que a de seus antecessores. A perfeição, entretanto, vai além da parte física. Estes são os melhores tempos em toda a história do futebol para se ser uma estrela. O jogo foi reestruturado para seu benefício.

As estrelas de futebol costumavam ser como estrelas de rock. Eram perseguidas por tietes. A expectativa era de que o corpo aguentasse até os 30 anos. Não ganhavam fortunas: Eusébio (que morreu no dia 5) ganhava cerca de £ 4 mil (R$ 15,5 mil) no Benfica em 1969. E a maioria vivia em grande estilo. Afinal, ser um gênio significava a falta de necessidade de se esforçar muito. Ferenc Puskás, nos anos 1950, era gordo. George Best, nos 60, alcóolatra. Johan Cruyff, nos 70, fumante inveterado. E Diego Maradona, nos 80, usuário pesado de cocaína. As tentações do estrelato eram imponentes; sucumbir era quase um objetivo.

Best, depois de 1968, e Maradona e Pelé, durante a maior parte de suas carreiras, jogaram com companheiros de time pouco notáveis. Maradona, no Napoli, muitas vezes recebia os passes nas costas - e, ainda assim, gentilmente, aplaudia. Poucos aspiravam a brilhar semanalmente. Pelé estava sempre percorrendo o planeta para participar de jogos de exibição insignificantes. A Argentina dos anos 80, durante o auge de Maradona, ganhou apenas 35% de seus jogos, menos do que em qualquer outra década, segundo cálculos do economista especializado em esportes Stefan Szymanski. Maradona revertia esses números em Copas do Mundo, mas raramente entre elas.

Quando as estrelas do passado tentavam se sobressair, eram caçadas em campo. Em 1966, Pelé saiu mancando da Copa do Mundo; em 1983, o tornozelo de Maradona foi triturado pelo zagueiro Andoni Goikoetxea ("o açougueiro de Bilbao"); e, em 1992, a carreira de Marco van Basten chegou ao fim aos seus 28 anos, após uma contusão.

O que transformou a sorte das estrelas foi a televisão. Antes da década de 90, poucos jogos eram televisionados. Um torcedor europeu dificilmente viu Pelé jogar mais de dez vezes em sua carreira, seja na TV ou em estádios. Rupert Murdoch e Silvio Berlusconi criaram canais de TV com base no futebol. De repente, o futebol precisava tornar-se mais atraente. As estrelas agora haviam se transformado em conteúdo para as TVs e, portanto, precisavam ser protegidas. As autoridades do futebol adotaram linha dura contra as faltas e proibiram o carrinho por trás. Hoje, Lionel Messi ganha falta quase sempre que é tocado.

A TV tornou os clubes mais ricos. Alguns poucos clubes ricos passaram a monopolizar os melhores jogadores. Messi chegou no Barcelona aos 13 anos e passou toda sua carreira lá, ao lado de outros jogadores excelentes. Fica evidente quanto isso ajuda seu desempenho quando se veem as dificuldades que encontra para atuar com jogadores de menor categoria na seleção Argentina.

Os grandes clubes fizeram um novo acordo com as estrelas: vamos lhes pagar fortunas se vocês viverem como profissionais. Ibrahimovic diz que, quando se tem o talento dele, o sucesso é uma questão de escolha: simplesmente é preciso decidir esforçar-se. Hoje, as estrelas se esforçam.

O exemplo definitivo é Cristiano Ronaldo (eleito o melhor jogador do mundo na segunda-feira). Jogadores "de explosão", com alta proporção de fibras musculares de rápida contração, tendem a ter carreiras mais curtas. Isso aconteceu com estrelas dos anos 90, como Ronaldo e Michael Owen. Cristiano, no entanto, por meio de dietas e exercícios constantes, conseguiu fortalecer-se. Às vezes, depois de voltar de jogos no exterior, ele fica em banheiras com gelo às 5 horas da manhã. É considerado arrogante por acreditar, acertadamente, que se tornou o que é graças a muito trabalho. Atualmente, uma campanha com pôsteres de 19 metros de altura com o jogador em cueca domina as ruas de Madri. Não é uma campanha publicitária que alguém sequer tenha imaginado para Maradona.

Os jogadores de hoje raramente se machucam. São equipados para produzir genialidades duas vezes por semana quase para sempre. Cristiano tem mais de um gol por jogo de média há quase cinco anos no Real Madrid, maior índice na história do futebol espanhol. Em 2012, Messi marcou um recorde de 91 gols.

A grandeza das estrelas atuais pode parecer algo automático. O técnico do Arsenal, Arsène Wenger, disse que Messi parece ser um jogador de PlayStation. Algo se perdeu em meio a todo esse processo. Maradona oferecia o espetáculo da luta do jogador contra seu próprio "eu". Messi oferece apenas genialidades perfeitamente profissionais, como se Claude Monet tivesse assinado um contrato para produzir obras-primas duas vezes por semana e, então, realmente as produzisse.

Messi é um gênio como Monet, mas a genialidade de Messi é mais fácil de apreciar para a maioria das pessoas. Ele permite aos assinantes de TVs pagas em todo o mundo vislumbrar flashes de algo superior. Nas palavras de Nico Scheepmaker, biógrafo de Cruyff, nossas vidas hoje são mais ricas e mais prazerosas do que teriam sido sem Messi, Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic. Devemos essa felicidade, em grande parte, a Murdoch e Berlusconi.

19 de março de 2013

O Orgulho da Nação

Quem viu “Bastardos Inglórios” certamente lembra que seu ápice ocorre em um cinema em Paris, onde toda a alta cúpula nazista está reunida para assistir a um filme. Talvez não seja novidade para os mais bem informados, mas somente ontem eu soube que os Extras do DVD trazem a íntegra de “O Orgulho da Nação”, curta-metragem de exaltação ao nazismo feito por Tarantino para que algumas cenas fossem incorporadas a seu penúltimo longa-metragem.

São apenas seis minutos. Quem é fã de Tarantino vai se divertir:


16 de março de 2013

Por que Vinicius de Moraes foi assim batizado


Sem mais delongas, transcrevo por aqui um trecho legal demais da entrevista concedida por Lygia Fagundes Telles ao jornalista e escritor José Castello, publicada na edição de sexta-feira (15 de março) do “Valor Econômico”:

"Um dia, Vinicius me perguntou: 'Não quer ter um caso comigo?'" Áspera, ela lhe respondeu: "Não sou uma mulher de ter casos, Vinicius". Mas o poeta era um homem insistente: "Então você casa comigo?" Lygia não o perdoou: "Mas você é um homem casado, Vinicius!" Abre, então, um vasto sorriso para rememorar a cartada final do poeta: "Nesse caso, descaso", lhe disse Vinicius. Ela sentiu então que, apesar das fantasias de amor a que o poeta se agarrava, havia no convite uma ponta de verdade. Que ponta? Anos depois, Vinicius já morto, Lygia se encontrou, por acaso, com uma de suas irmãs. Soube, então, que, quando estava grávida, a pianista amadora Lídia, mãe do poeta, leu o "Quo Vadis", de Henryk Sienkiewicz. Relato em que os dois protagonistas se chamam, justamente, Vinicius e Lygia. Se fosse menina, o bebê se chamaria Lygia - Lidia e o marido Clodoaldo decidiram. Nasceu menino e se tornou Vinicius de Moraes.

24 de outubro de 2012

EUA, Obama e brasileiros mais ou menos conservadores: uma salada confusa

Um giro rápido pelas redes sociais permite ver que a maioria avassaladora dos brasileiros com algum interesse por política votaria pela reeleição de Obama, caso tivesse essa chance. Grande parte desse potencial eleitorado também vota no PSDB e em outros partidos conservadores no Brasil. Meio confuso, não?

Ao analisar essa preferência brasileira a partir de outro viés político, também tenho ficado confuso. Em 2008 e em 2012, não foram poucos os comunistas, socialistas, petistas e esquerdistas em geral que afirmaram (e ainda afirmam) preferir o voto nulo a optar por algum candidato do Partido Democrata ou do Partido Republicano nos Estados Unidos. Seus argumentos não são ruins, mas o problema é ver esses mesmos cidadãos criticarem partidos de esquerda como o Psol, por sua defesa do voto nulo na eleição para prefeito de São Paulo.

Com todo respeito aos amigos de esquerda que se enquadram nesses perfis, ambos estão errados. Diante da possibilidade de eleger Serra em São Paulo ou Mitt Romney nos EUA, a opção por Haddad e Obama deve ser automática, sem qualquer tipo de vacilo. Tanto o PT quanto o atual presidente norte-americano pisaram na bola nos últimos anos, mas a discrepância em relação àquilo que seus adversários defendem é gritante.

Sobre o eleitor mais ou menos conservador do Brasil, vale a pena pensar por 40 segundos a respeito da curta trajetória do PSDB. Socialdemocrata até no nome, o partido tinha tudo para conquistar os corações da maioria do eleitorado nacional, caso não tivesse derrapado de maneira tão drástica em suas políticas sociais enquanto esteve no poder. A competência do governo Lula nessa seara mostra que somente um pouco de sensibilidade já seria o bastante para contentar os mais carentes. Serra demais e dona Ruth Cardoso de menos resultaram em um partido que, com raras exceções, só encontra ressonância entre uma minoria da sociedade – e hoje paga um preço alto por essa escolha inadequada.

O eleitor mais ou menos conservador brasileiro, no entanto, é um sujeito meio difícil de entender. Ele critica as greves no metrô de sua cidade, odeia ver a Avenida Paulista paralisada e vibra quando a PM destrói comunidades como o Pinheirinho, mas fica admirado ao ver o povo grego lutando contra a crise financeira, cem mil funcionários públicos ingleses protestando nas ruas de Londres ou os jovens indignados na Espanha. Ao mesmo tempo, para esse cidadão Bill Clinton foi um presidente sensacional e Tony Blair, digamos, era um primeiro-ministro “moderno”, ambos com perfis adequados para comandar este país que nunca vai pra frente.

Ao contrário do que se fala por aí, direita e esquerda ainda existem na política brasileira e mundial, embora cada vez mais se travistam e confundam os incautos. Nos Estados Unidos isso não é diferente, mas suas forças realmente progressistas são diminutas no cenário político nacional – embora não estejam ausentes do debate. Sindicatos, movimentos populares, organizações de imigrantes e parte da chamada “sociedade civil” estão com Obama e têm dezenas de razões para temer o retorno dos Republicanos à Casa Branca.

Em meio a essa salada, é irresistível imaginar os mais ou menos conservadores brasileiros ao lado de movimentos sociais norte-americanos. Como se daria essa cena? Todos de mãos dadas em frente ao Lago da Reflexão em Washington? Ou seria melhor “ocupando” Wall Street junto aos outros 99% que se derem mal durante a crise financeira? Em qualquer cenário, certamente seria possível tirar uma foto bacana e posar de progressista no Facebook, antes de parar em Miami e fazer umas compras, porque ninguém é de ferro.

Confuso, tudo é muito confuso...

10 de setembro de 2012

Muchacha en la ventana

Enquanto nada de bom é postado por aqui, perco dois minutos para reproduzir uma imagem à qual fui apresentado há poucos minutos: "Muchacha en la ventana", de Salvador Dalí.

A obra é de 1925 e retrata Ana, irmã de Dalí, então com 17 anos. Não sei quando ele começou a fazer quadros mais surreais, mas posso dizer que este me agradou em cheio. Coisa linda!


22 de junho de 2012

China e a música clássica: outra revolução à vista

A edição da semana passada da “CartaCapital” trouxe um artigo bacana, de Oliviero Pluviano, sobre como os chineses têm investido em música clássica – e que tipo de retorno isso tem proporcionado ao país.

Quem gosta um pouquinho do tema já deve ao menos ter ouvido falar de Lang Lang (foto), rapaz de 30 anos que para alguns críticos já é o melhor pianista do mundo. O texto fala de alguns outros nomes – como a violonista Xuefei Yang e a mais nova virtuose do piano, Yuja Wang – e traz uma série de informações que irei reproduzir por aqui.

Quando fala do menino Marc Yu, de 13 anos, o autor se refere a ele como “Pequeno Mozart” e diz que o rapaz nasceu com ouvido absoluto (capacidade de reconhecer as notas de uma música associando-as a seus respectivos nomes). Até aí, nada demais.  A bomba vem a seguir:

“No Ocidente, o ouvido absoluto é o sonho de todos os músicos, mas na China esse dom da natureza é muito popular porque, em mandarim, basta uma entonação diferente para mudar o significado de uma palavra”.

O texto diz ainda que, por conta dessa característica, as indústrias de instrumentos musicais na China, outrora decadentes, hoje ocupam o posto de líderes na luthieiria mundial.

Como exemplo, Pluviano fala de uma dessas poderosas indústrias, a Taixing Fengling, que produz cerca de 300 mil violinos ocidentais e 400 mil violões por ano. “Mas os chineses almejam a excelência e, por isso, foram à Itália aprender os segredos dos melhores luthiers da história. Atualmente eles estão fundando perto de Pequim uma verdadeira cidade dos instrumentos de corda que se chamará Cremona, como a da Lombardia, berço de Antonio Stradivari”.

Abaixo, coloco um dos muitos vídeos sobre os artistas citados (sob cada um deles há um link para o YouTube). A escolhida foi a senhorita Wang, já famosa também por suas roupas, tocando “Flight of the Bumble-Bee”.

13 de junho de 2012

Tarantino na área

Eis que pinta o trailer do novo filme de Quentin Tarantino: “Django Unchained”. O roteiro é feito pelo próprio diretor, que recrutou uma turma da pesada: Christoph Waltz, Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.

O trailer dá toda a pinta de que virá mais uma nova bomba tarantinesca, no bom sentido do termo. Nos EUA, a estreia acontecerá no Natal. Por aqui ainda não há uma previsão exata. Aguardemos!

O trailer segue abaixo: