26 de dezembro de 2009

Roberto Carlos do Brasil

A piada é batida, mas sempre cai bem. Dizem que há três coisas certas em nossas vidas: a morte, o pagamento de impostos e o especial de final de ano do Roberto Carlos na Globo. Pois bem. Cantarolei baixinho 11 das 15 músicas interpretadas pelo Rei nesta sexta-feira. Ao escrever essa última frase não sei se sinto orgulho ou vergonha, tal qual acontece quase sempre que penso no quanto gosto da obra do Robertão.

Roberto é musicalmente limitado, mas canta pra cacete. A maioria de suas letras (mesmo na fase áurea) é extremamente simples, mas nem por isso deixam de ser bacanas – sendo que algumas, por mais paradoxal que possa parecer, chegam a beirar a genialidade. Sua religiosidade e manias me irritam, mas o que eu tenho a ver com isso?

Como é possível ouvir "Detalhes" pela 5432ª vez e mesmo assim parar pra prestar um pouco mais de atenção em determinado verso? Como é possível ter na memória cada acordezinho de "Emoções", se ela não está nem entre as mnhas 30 favoritas do Rei? Como é possível assistir ao especial da Globo torcendo pra que ele cante AQUELA canção?

Pausa para ouvir "Outra vez":



Dia desses, o chapa Ronaldo Samadello contou das reações de uma parente que chora compulsivamente sempre que ouve as canções do Rei. Lembro também de uma vizinha que falava para quem quisesse ouvir, em tom sério, que Roberto Carlos foi, é e sempre será o homem mais bonito do Brasil. A experiência de assistir a um de seus shows ao vivo também vai nessa toada, com direito a manifestações apaixonadas e até mesmo vulgares das senhorinhas mais exaltadas.

Há uns quatro anos, depois de ler "Como dois e dois são cinco", de Pedro Alexandre Sanchez, ouvi disco a disco a obra de Roberto (viva a internet!). O livro analisa cada um deles e é sem dúvida o melhor trabalho já feito pra entender um pouco da fama, do talento e da aura criada em torno do cantor. Roberto nunca teve o talento de um João Gilberto, a genialidade de Chico ou Tom, nem mesmo o carisma de Simonal ou Ronnie Von. Também nunca foi um homem bonito, politicamente engajado, engraçado ou alguém que se portasse como exemplo para os mais jovens. Como explicar Roberto Carlos?

Em um trecho do livro, Pedro Alexandre dá uma definição que talvez ajude a entender um pouco esse fenômeno: "
Roberto Carlos é um dos mais intensos e completos sinônimos de Brasil que já existiram, quase assim um mito do nosso folclore. Nutrido do misto de amor e resistência (repulsa?) que todos sentimos por ele, Roberto poderia se chamar Brasil".

Desconfio que a resposta para entendermos o que o Brasil sente por Roberto vai por essa linha. Nosso país sempre foi e será uma contradição absurda, repleto de motivos que nos enchem de orgulho e vergonha, de paixão e ódio, de realizações que merecem ser apagadas da história e outras que devem ser perpetuadas por todo o sempre.

Depois do especial da Globo deu vontade de voltar a escutar alguns dos discos do Rei com mais atenção e, consequentemente, escrever uns posts aqui sobre eles. Fica uma canja aqui de "Só vou gostar de quem gosta de mim":


24 de dezembro de 2009

Racismo, imprensa, história

Duas recente conversas – uma sobre racismo, outra sobre desigualdade – me remeteram a um arquivo muito bacana que circulou pela internet há alguns anos. Faço questão de colá-lo aqui pela excelente sacada, embora não saiba exatamente quem é seu autor.

Em tempos nos quais jornalistas metidos a intelectuais tentam enfiam goela abaixo a ideia de que "não somos racistas", nunca é demais lembrar um pouquino da recente história do Brasil pra entender um pouco do que acontece ao nosso redor.

17 de dezembro de 2009

Lula x Collor: 20 anos

Dá até um nó na garganta lembrar que hoje se completam exatos 20 anos da eleição mais importante da recente história do Brasil. Talvez as vitórias de Fernando Henrique e Lula, em 1994 e 2002, respectivamente, serão lembradas no futuro como fatos mais significativos, mas a esta altura do campeonato - e por tudo que cerca a disputa de 1989 - eu ainda fico com a vitória de Collor como a mais importante.

Um texto escrito por aqui há exatamento um ano mostra que a data, em minha memória afetiva, não traz boas recordações. E, por mais contraditório que possa parecer, creio que a vitória de Collor foi algo benéfico para o Brasil, diante das circunstâncias daquele segundo turno.

A vitória de Lula teria sido uma catástrofe - e quem escreve isso é um defensor do atual governo e da maior parte das decisões tomadas pelo presidente ao longo de seu mandato. Eleito em 1989, Lula faria com que toda e qualquer futura candidatura de esquerda se tornasse fadada ao fracasso até o século 22 no Brasil, tamanha a complexidade da sociedade brasileira pós-ditadura e as debilidades de grande parte das propostas defendidas em sua candidatura.

Óbvio também que Collor estava longe de ser a melhor escolha àquela época. Em termos de correlação de forças, teria sido muito mais interessante ver um segundo turno com Brizola no lugar de Lula. Mais experiente e preparado do que o candidato petista, certamente o velho pededista teria enfrentado com muito mais perspicácia todos os adversários que se uniram ao redor do collorido, especialmente a imprensa.

Mas mesmo a vitória de Brizola talvez se mostrasse como algo inviável no Brasil dos anos 90. Difícil, no entanto, imaginar qual teria sido a melhor opção. Ulisses, por todo seu passado, é o primeiro e único nome que vem à cabeça. Pensar em Mario Covas ou qualquer opção minimamente aceitável (Maluf, Gabeira, Afif e outros não contam) é apelar demais pra imaginação.

O Uol produziu uma série de entrevistas com alguns dos protagonistas daquela campanha, como o próprio Collor. Apesar da falsa impressão de que existe muita informação sobre aqueles já distantes dias, a verdade não é bem assim. Tanto os anos em que Sarney esteve à frente da Presidência como a curta passagem de Collor pelo poder ainda carecem de dezenas e dezenas de estudos mais sérios. A imprensa, até como uma espécie de mea culpa, tenta resgatar parte do que aconteceu, mas faltam ainda trabalhos mais aprofundados que analisem esse recente pedaço da história brasileira e mostrem o quanto ele é importante para explicar o país que somos hoje e que, oxalá, viremos a ser nas próximas décadas.

16 de dezembro de 2009

Sobre djavanês e regravações infelizes

Ontem ao ver um trecho do sempre bacana "Sr Brasil", com Rolando Boldrin, lembrei do velho texto "O homem que sabia djavanês", cujo autor nunca descobri. Pra quem não conhece, aí vai. Depois eu concluo o post.

O homem que sabia djavanês

Eu tinha chegado fazia pouco ao Rio de Janeiro e estava literalmente na miséria. Vivia fugindo de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro. Até que um dia, lendo "O Globo", deparei com este anúncio: "Precisa-se de um professor de djavanês".
A audição das músicas de DJ Avan sempre provocou em mim puro mal- estar físico. Mas, enfim, precisava de grana e decidi fazer o possível para vencê-lo.
Naquela semana, fui a todos os barezinhos com música ao vivo da idade. Perdi a conta de quantas vezes escutei "e o meu jardim da vida ressecou, morreu" ou "amar é um deserto e seus temores". Foram sete dias de tortura; contudo, saí deles com o djavanês na ponta da língua. Em vez de mandar meu currículo, achei que conviria visitar o endereço indicado no anúncio.
Era um tríplex de cobertura, decorado com muito dinheiro e mau gosto ainda maior, num dos bairros mais caros do Rio. Apresentei-me comoprofessor de djavanês e, após ser submetido a inquérito pelos empregados, fui levado à presença do patrão, o doutor Albernaz. Ele me recebeu com um sorriso visivelmente irônico.
"Então o senhor é professor de djavanês, hein?" "Sim, sou. Formado em djavanês e com mestrado em beregüê. Tive dez com louvor na minha tese sobre a influência de Carlinhos Brown na obra de James Joyce." A tese, obviamente, não existia, mas o doutor Albernaz pareceu acreditar na conversa. "Então, só o senhor pode me ajudar. Ouça isto, por favor" - e pôs nas minhas mãos uma coletânea do DJ Avan em CD. Ao notar minha cara de ponto de interrogação, ele contou sua história.
"Pouco antes de morrer, meu pai me entregou esse CD e disse: 'Filho, tenho certeza de que DJ Avan canta coisas muito profundas, mas ouvi suas músicas durante anos e nunca consegui entender porra nenhuma. Só podem ser segredos iniciáticos transmitidos da maneira mais hermética possível. Descubra o significado e você obterá a chave da felicidade'."
O doutor Albernaz abriu o encarte do CD e me mostrou uma das letras: "'Obi, obi, obá. Que nem zen, czar. Shalom Jerusalém, z'oiseau'. O que é isso?". Eu estava tenso com a pergunta do doutor Albernaz.
Tantas músicas do DJ Avan e o velho tinha de querer saber o que significava a letra de "Obi"? Desgraçado. Se ainda fosse aquela do "o amor que é azulzinho", mas era tarde. Ele tinha os olhos fixos em mim: queria respostas. Todo o sucesso da minha empreitada dependia de uma explicação convincente e imediata. De repente, uma idéia. Começo: "Veja bem. 'Obi' é certamente uma referência a Obi-Wan Kenobi, o sábio de 'Guerra nas Estrelas' interpretado por sir Alec Guinness. 'Obá', por sua vez, remete a 'Djobi Djobá', sucesso dos Gipsy Kings. DJ Avan buscou contrastar o lado luminoso e britânico da força com os mistérios nômades da alma cigana. A mesma tensão dialética pode ser verificada no verso subseqüente, 'que nem zen, czar': a contemplação espiritual dos monges budistas e o poder absoluto dos czares. Perceba como tese e antítese se resolvem lindamente na síntese do verso seguinte: 'shalom Jerusalém' é a paz do espírito na divina cidade. É ela que faz a alma se elevar aos céus, como um pássaro ('z'oiseau')". Os olhos do doutor Albernaz se arregalaram enquanto eu falava.
Dois segundos depois de eu terminar, ele gritou: "Que maravilha! Sabia que havia algo de muito profundo nessa letra! O senhor é um gênio da hermenêutica, um mestre do djavanês!".
Passei a tarde inventando explicações para todas as outras letras do CD - Açaí guardiã..., Kremlin-Berlim-pra-não-dizer-Tel-Aviv..., índio cara-pálida cara de índio... Citei Joyce, Pound, Oswald, Glauber, Zé Celso, Hélio Oiticica e Odair Cabeça de Poeta: name-dropping é comigo mesmo.
Daí por diante, minha ascensão social estava garantida. Eu era o único intelectual do país capaz de traduzir a transcendência da inguagem de DJ Avan. Tinha prestígio acadêmico e subsídio do Ministério da Cultura; gostosíssimas estudantes de lingüística rasgavam as roupas e se atiravam aos meus pés. Mas troquei tudo por um violão, sandálias de couro cru e um penteado novo. Mudei até meu nome graças ao djavanês.
Hoje me chamo Jorge Vercilo e sei que "nada vai me fazer desistir do amor"...

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Pois bem. Jorge Vercilo estava no programa da TV Cultura - surpresa número 1. Aí o rapaz começa a cantar "Beatriz", do Chico e do Edu Lobo - surpresa número 2. Uma eventual terceira surpresa seria curtir sua versão, mas não foi o caso.

Mais do que isso: Vercilo conseguiu ser pior do que Ana Carolina cantando a mesma música. Passam-se os anos e os artistas novatos insistem em fazer algo que nunca dará certo: regravar canções que dificilmente poderão ser mais bem interpretadas do que algumas versões definitivas. No caso de "Beatriz", vai demorar 249 anos pra alguém chegar perto de Milton Nascimento. Nem mesmo Monica Salmaso - talvez a cantora mais talentosa da nova geração - chegou perto, embora não tenha repetido o papelão de alguns de seus colegas.

Clicando aqui (o azar é seu) você pode ouvir a versão de Vercilo para "Beatriz". Para ouvir Ana Carolina ("será que ela é moça?"), clique aqui, mas não sem abaixar o volume, já que ela grita pra cacete. Para ouvir dona Salmaso, clique aqui. E pra ouvir seu Milton só veja o vídeo abaixo:

15 de dezembro de 2009

Um bom exemplo de onde menos se espera

Leio no blog do Cosme Rímoli os bastidores da contratação do novo técnico do Vasco, Vagner Mancini. Segundo o repórter, um dos nomes cogitados a assumir o cargo era o ex-zagueiro e ex-diretor do Corinthians Antônio Carlos, que teria sido vetado por uma das torcidas organizadas do clube.

Em geral fico puto com esse tipo de ingerência e poder atribuído a um bando de vândalos. Mas eis que agora os caras mandaram muito bem. O movivo alegado? O Vasco não pode ter um racista em seu comando.

Sim, se valeram da história gloriosa do Vasco, o primeiro grande clube brasileiro a aceitar, ainda na década de 20, que negros vestissem sua camisa. E não se esqueceram do lamentável episódio em que Antônio Carlos, em final de carreira, jogando pelo Juventude, foi flagrado fazendo um gesto racista contra o volante Jeovânio, à época no Grêmio.

Segundo a reportagem, Antônio Carlos já estava se preparando para mudar com sua familia ao Rio de Janeiro. Contra racistas é preciso pegar pesado mesmo. Que outros clubes sigam o exemplo.

12 de dezembro de 2009

Sobre educar e deseducar

I

Volto novamente a "Infância", pequena obra prima de Graciliano Ramos:

"A professora tinha mãe e filha. A filha [...] nos ensinava as lições, mas nos ensinava de tal forma que percebemos nela tanta ignorância como em nós".

II

Insisto com o mesmo livro, me valendo, agora, de um trecho mais longo:

"Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. [...] Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.

Meu pai determinou que eu iniciasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.

[...]

À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.

Na terceira noite, fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte, quando me preparei para remoer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.

Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não poderiam durar".

Sobre aids, banho, culturas diferentes e ufanismo

Dia desses, num papo bem tonto com fundamento sério, falava com um amigo sobre a probabilidade de conhecer alguma moçoila portadora do HIV e ter um caso com dita cuja. A conversa surgiu logo depois da publicação de duas pesquisas: uma falando sobre a quantidade de pessoas com aids no mundo; a outra sobre o mesmo assunto, mas apenas no Brasil.

A parte tonta do papo veio da "conclusão" de que é preciso ser miseravelmente azarado para sair com alguma HIV positivo e contrair o vírus - segundo a pesquisa, há cerca de 34 milhões de pessoas infectadas no mundo, cerca de 500 mil no Brasil. Levando-se em conta que há umas 6 bilhões de pessoas nos cinco continentes e 200 milhões por aqui, os matemáticos podem finalizar a conta, algo que a cerveja não permitiu que concluíssemos.

Enfim, toda essa enrolação tonta é pra chegar nuns números realmente alarmantes, vistos numa matéria da CartaCapital desta semana, sobre o descontrole da aids na África do Sul, sede da próxima Copa do Mundo.

Vamos a alguns números, pra depois chegarmos a algumas barbaridades:

- A África do Sul tem 49 milhões de habitantes e cerca de 5,7 milhões de infectados (cerca de 17% dos portadores de todo o mundo);
- Cerca de 10% dos jovens entre 15 e 24 anos têm o HIV;
- Entre os adultos, a percentagem chega a 18% da população;
- Em algumas cidades, como Mpumalanga, cerca de 40% dos adultos são soropositivos;
- Em 1990, 1% dos sul-africanos tinham a doença; hoje são 12%.

Dizem que não existe problema social com uma só causa. A questão da aids na África do Sul comprova essa máxima, mas dois problemas saltam aos olhos absurdamente: ignorância e violência contra a mulher.

Cerca de 50 mil casos de estupro são registrados por ano - não dá nem vontade de saber a quantidade dos que não são levados ao conhecimento das autoridades. Em grande parte do país, a poligamia é aceita e em outras acredita-se que o sexo com mulheres virgens pode acabar com o HIV.

Criticar a cultura alheia é sempre algo meio delicado, mas atacar a ignorância é dever das autoridades. Aí nasce outro problema: o atual presidente (Jacob Zuma) já disse, há alguns anos, que após ter um caso extraconjugal, tomou um banho para evitar qualquer possibilidade de contrair o vírus. Seu antecessor (Thabo Mkebi) foi ainda mais longe: em 1999, contrariado com o tema, disse duvidar da existência do HIV.

Resultados: apenas a partir de 2001 a África do Sul passou a fazer uso dos coquetéis contra a doença; em 2008, 756 sul-africanos morreramm em decorrência do vírus.

Mas não se ufane: só em 2008, o Brasil teve mais de 800 mil casos de dengue...