Sim, isso já aconteceu. O ano: 1972. A ocasião: o programa de maior destaque na TV brasileira naqueles idos: o de Flávio Cavalcanti.
O relato desse momento inusitado está em um livro estranho: “Um instante, maestro!”, de Léa Penteado. “Estranho” porque não se trata de uma biografia pura e simplesmente ruim, mas sim de um texto elaborado por alguém que vê no antigo apresentador uma espécie de pai sem qualquer defeito; uma autora que, por ter sido tão próxima de seu personagem, se mostra incapaz de manter o distanciamento mínimo para escrever sobre um nome fundamental da história da TV no Brasil.
Segundo a autora, que foi por mais de uma década secretária particular do apresentador, Pelé, Roberto Carlos e Chico Anysio eram as personalidades mais importantes do Brasil em 1972. Em maio daquele ano, numa espécie de sofá da Hebe, os três foram convidados a passar por uma situação inusitada, cujo registro em vídeo infelizmente se perdeu.
Segundo a autora, no “encontro criativo” Pelé cantou, Roberto Carlos contou piadas e Chico Anysio fez algumas embaixadinhas. A cena se tornou capa de algumas revistas e chegou a cravar 72 pontos de audiência no Ibope.
Memória traíra e surpreendente
Flávio Cavalcanti alcançou grande popularidade nos anos 60, mas sua figura me remete a uma de minhas primeiras memórias televisivas, ainda em preto-e-branco, no começo dos anos 80. Ao ler o livro, percebi, mais uma vez, que recordações infantis estão longe de ser confiáveis. Eu tinha certeza absoluta de que o apresentador havia morrido durante um de seus programas ao vivo. Na verdade ele passou mal diante das câmeras, precisou ser substituído por um de seus jurados (Wagner Montes!) e veio a morrer alguns dias depois, em decorrência de problemas cardíacos.
Mais curioso ainda é ver como certas leituras batem fundo em nossa memória. O último capítulo do livro destaca uma atitude bacana de Silvio Santos (último patrão de Flávio Cavalcanti), que simplesmente tirou do ar toda a programação do canal por 24 horas (27/05/86), em respeito ao funcionário que acabara de falecer. Aquele foi um dia em que, por algum razão, não pude sair de casa. Devo ter recorrido à TV para me entreter e foi aí que a imagem da tela do SBT, toda escura e apenas com uma faixa transversal, se fixou de maneira muito nítida em minha retina, provavelmente pelo seu ineditismo. Era como se Fausto Silva batesse as botas repentinamente, com uma diferença básica: ao invés de ligar a televisão, talvez um guri de seis anos, hoje em dia, se refugiasse no laptop do pai, em busca de um antídoto à monotonia de um dia triste.
Já reparou?
10 de maio de 2012
9 de maio de 2012
A bomba-relógio do jornalismo
Esta semana tem bombado uma discussão sobre a desgraça que se tornou, para a maioria dos profissionais de jornalismo, seu cotidiano de trabalho. Abaixo, reproduzo um texto que demonstra de forma muito consistente por que há muitos motivos para preocuação.
Destaco alguns pontos:
- Os profissionais são cada vez mais jovens;
- As faculdades tradicionais são cada vez menos procuradas - a formação, portanto, tem sido pior;
- Profissionais cada vez mais subservientes e temerosos pela perda do emprego;
- Uma absurda informalidade nas relações trabalhistas;
- A desvalorização dos profissionais, em comparação a outros ramos de atividade com formação superior.
De fato, tem sido cada vez mais raro achar alguém com mais de 50 anos que exerça exclusivamente a profissão de jornalista. Poucos são os que aguentam o tranco de décadas em redações ou assessorias de imprensa. Mulheres, em especial, se veem diante do dilema de ter filhos e colocar em risco sua ascensão profissional, em um mercado em que direitos como licença-maternidade se tornaram um diferencial oferecido por muitas empresas.
Triste. Muito triste.
Leia abaixo a íntegra do texto:
Feliz na profissão?
O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem. O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa. E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país.
Por Elaine Tavares, no Observatório da Imprensa
Segundo Heloani, a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista. Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour. A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo, eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizar outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença!
Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão. Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença.
O aumento da multifunção
Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas. Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados. Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. "Os patrões adoram porque eles não dão trabalho."
Outro elemento importante desta "jovialização" da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não têm toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas. Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as "uni", que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. "É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado." Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos "velhos", fazendo mil e uma funções e afundando a profissão.
Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a ideia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc... A jornada de trabalho, que pela lei seria de cinco horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso.
Doença é consequência natural
Para os mais velhos, além da cobrança diária por "atualização e flexibilidade", há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de "plano B", o que pode causa muitos danos a saúde física e mental. Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. "Eles fatalmente adoecem, não aguentam."
O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. "Se há uma profissão que abraçou mesmo essa ideia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas."
Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. "Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes. Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química".
O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse. Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades, os jornalistas não têm tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos. Com este cenário, a doença é consequência natural.
Transformados em sócios-cotistas
O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos. No mais das vezes, estes trabalhadores não têm vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho. Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho.
Doenças como síndrome do pânico, angústia e depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens. O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes.
Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. "As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia", diz ele. Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. "É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro."
Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. "Ela chorava e dizia, `Não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá porque só juntos podemos mudar tudo isso." Rubens ainda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. "Isso sem contar as fraudes, como as de alguns jornais catarinenses que não têm qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão."
Destaco alguns pontos:
- Os profissionais são cada vez mais jovens;
- As faculdades tradicionais são cada vez menos procuradas - a formação, portanto, tem sido pior;
- Profissionais cada vez mais subservientes e temerosos pela perda do emprego;
- Uma absurda informalidade nas relações trabalhistas;
- A desvalorização dos profissionais, em comparação a outros ramos de atividade com formação superior.
De fato, tem sido cada vez mais raro achar alguém com mais de 50 anos que exerça exclusivamente a profissão de jornalista. Poucos são os que aguentam o tranco de décadas em redações ou assessorias de imprensa. Mulheres, em especial, se veem diante do dilema de ter filhos e colocar em risco sua ascensão profissional, em um mercado em que direitos como licença-maternidade se tornaram um diferencial oferecido por muitas empresas.
Triste. Muito triste.
Leia abaixo a íntegra do texto:
Feliz na profissão?
O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem. O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa. E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país.
Por Elaine Tavares, no Observatório da Imprensa
Segundo Heloani, a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista. Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour. A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo, eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizar outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença!
Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão. Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença.
O aumento da multifunção
Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas. Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados. Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. "Os patrões adoram porque eles não dão trabalho."
Outro elemento importante desta "jovialização" da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não têm toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas. Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as "uni", que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. "É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado." Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos "velhos", fazendo mil e uma funções e afundando a profissão.
Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a ideia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc... A jornada de trabalho, que pela lei seria de cinco horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso.
Doença é consequência natural
Para os mais velhos, além da cobrança diária por "atualização e flexibilidade", há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de "plano B", o que pode causa muitos danos a saúde física e mental. Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. "Eles fatalmente adoecem, não aguentam."
O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. "Se há uma profissão que abraçou mesmo essa ideia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas."
Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. "Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes. Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química".
O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse. Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades, os jornalistas não têm tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos. Com este cenário, a doença é consequência natural.
Transformados em sócios-cotistas
O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos. No mais das vezes, estes trabalhadores não têm vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho. Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho.
Doenças como síndrome do pânico, angústia e depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens. O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes.
Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. "As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia", diz ele. Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. "É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro."
Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. "Ela chorava e dizia, `Não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá porque só juntos podemos mudar tudo isso." Rubens ainda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. "Isso sem contar as fraudes, como as de alguns jornais catarinenses que não têm qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão."
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1 de maio de 2012
Dilma e os bancos: a comemoração e o temor
No Dia do Trabalhador, não houve brasileiro assalariado ou pequeno empresário que tenha ficado indiferente ao pronunciamento da presidenta Dilma na noite de ontem. Com seu estilo duro e meio sem jeito, falou aquilo que todo cidadão minimamente incomodado com os lucros dos bancos no país gostaria de dizer, ao “chamá-los na chincha” e cobrar sua parte no esforço para o desenvolvimento do país.
“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão alto. O Brasil de hoje não justifica isso”, afirmou a presidenta. “Os bancos não podem continuar cobrando os mesmo juros para empresas e para o consumidor enquanto a Taxa Básica Selic cai, a economia se mantém estável, e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos. O setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros. A Selic baixa, a inflação permanece estável, mas os juros do cheque especial, das prestações ou do cartão de credito não diminuem”, continuou.
Discurso irrepreensível. De tão bom, chego a ficar com receio do que possa vir por aí. Dilma, ao longo de seus 16 meses de mandato, já deu mostras de que não dá muita bola para certos acertos politicos tradicionais. Agora, ao bater de frente contra o mercado financeiro, encara um adversário muito mais poderoso.
A chamada “grande mídia”, para variar, já mostrou hoje de que lado está. “Veja”, por exemplo, preferiu ignorar qualquer análise sobre o que siginifica essa postura de enfrentamento e criticar Dilma, dizendo que seu gesto foi inspirado em recentes atos da presidenta argentina Cristina Kirchner.
O troco virá em breve. E virá pesado. O alvo mais fácil será a necessidade de alterar o rendimento da poupança à medida em que a taxa de juros diminuir. Apesar de serem casos completamente diferentes, a memória do confisco de Collor ganhará destaque no "Jornal Nacional", enquanto o Bradesco patrocina cada um de seus intervalos comerciais, satisfeito pelo bom trabalho do jornalismo da Globo. Representantes dos banqueiros dirão que a atitude do governo brasileiro afasta os investimentos estrangeiros, em um momento inadequado, por conta da crise financeira internacional. Miriam Leitão aparecerá no "Bom Dia Brasil" como costumeira porta-voz da turma da bufunfa. Os especialistas de sempre em finanças serão chamados a explicar a irresponsabilidade do governo do PT.
A conferir. Espero, de verdade, estar enganado. Mas desconfio que as pancadas serão bem dadas, doloridas. Se você não viu o pronunciamento de Dilma, fica a dica:
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27 de abril de 2012
A melhor leitura da chamada “grande mídia”
Não me agrada fazer propaganda de nada relacionado à chamada “grande mídia”, mas devo abrir uma exceção para o caderno de fim de semana, do “Valor Econômico”, publicado sempre às sextas-feiras.
Em formato tabloide, o caderno propõe reportagens, resenhas e entrevistas sobre temas variados, a partir de textos muito bem editados, claramente sem a correria típica e a limitação de espaço impostos pelo jornalismo diário.
Apesar de ser uma publicação pertencente aos grupos Folha e Globo, o “Valor Econômico” e seu caderno de fim de semana conseguem fugir do conservadorismo por muitas vezes bobo dos carros-chefe das duas empresas. E, principalmente, suas páginas muito raramente se prestam ao papel de porta-voz da oposição no Brasil, evitando o exercício manjado de transformar qualquer pauta polêmica em oportunidade de atacar o governo federal.
Voltando apenas ao conteúdo do caderno dos finais de semana, me recordo, nas últimas edições, de boas entrevistas com Contardo Calligaris e Gustavo Franco, uma análise bem interessante sobre o papel da direita na política brasileira e sua inserção junto à classe C, belas resenhas de lançamentos de livros e das novidades no cinema, uma espécie de perfil da regente titular da Osesp e uma defesa apaixonada sobre a Copa do Mundo no Brasil.
A princípio, o conteúdo de "Fim de semana" pode ser comparado ao de cadernos como o "Aliás", do "Estadão", e "Ilustríssima", da "Folha", mas uma rápida folheada os coloca em patamares diferentes. A publicação do "Valor" nem de longe tem a pretensão meio intelectualoide dominical dos outros citados.
Nesta semana, vi apenas a capa do caderno: fotos de Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia hoje e nos anos 60, ao lado da seguinte chamada: “Nossos ídolos ainda são os mesmos – Ícones dos anos 60 continuam a comandar a massa”. Pareceu-me um pouco exagerado, mas parece ser o pontapé para uma boa discussão cultural. À leitura!
Em formato tabloide, o caderno propõe reportagens, resenhas e entrevistas sobre temas variados, a partir de textos muito bem editados, claramente sem a correria típica e a limitação de espaço impostos pelo jornalismo diário.
Apesar de ser uma publicação pertencente aos grupos Folha e Globo, o “Valor Econômico” e seu caderno de fim de semana conseguem fugir do conservadorismo por muitas vezes bobo dos carros-chefe das duas empresas. E, principalmente, suas páginas muito raramente se prestam ao papel de porta-voz da oposição no Brasil, evitando o exercício manjado de transformar qualquer pauta polêmica em oportunidade de atacar o governo federal.
Voltando apenas ao conteúdo do caderno dos finais de semana, me recordo, nas últimas edições, de boas entrevistas com Contardo Calligaris e Gustavo Franco, uma análise bem interessante sobre o papel da direita na política brasileira e sua inserção junto à classe C, belas resenhas de lançamentos de livros e das novidades no cinema, uma espécie de perfil da regente titular da Osesp e uma defesa apaixonada sobre a Copa do Mundo no Brasil.
A princípio, o conteúdo de "Fim de semana" pode ser comparado ao de cadernos como o "Aliás", do "Estadão", e "Ilustríssima", da "Folha", mas uma rápida folheada os coloca em patamares diferentes. A publicação do "Valor" nem de longe tem a pretensão meio intelectualoide dominical dos outros citados.
Nesta semana, vi apenas a capa do caderno: fotos de Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia hoje e nos anos 60, ao lado da seguinte chamada: “Nossos ídolos ainda são os mesmos – Ícones dos anos 60 continuam a comandar a massa”. Pareceu-me um pouco exagerado, mas parece ser o pontapé para uma boa discussão cultural. À leitura!
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23 de abril de 2012
Copa de 2014: sem exageros ou vexame
Atrasou o ônibus? Pode ter certeza: alguém no ponto vai comentar algo como "e ainda queremos organizar a Copa?". Metrô parou? Faça uma contagem regressiva: em menos de dez segundos haverá um cidadão para dizer que "desse jeito vamos passar vergonha na Copa". Estou longe de apoiar efusivamente a organização do Mundial por aqui, ainda mais com a série de exigências da Fifa, mas esse papo de utilizar o evento como pretexto para reclamar de tudo o que há de errado no Brasil tem me deixado puto.
Para minha satisfação, leio na coluna de Tostão, hoje, na "Folha", um ponto de vista que considero ideal, com comparações realistas, expectativas possíveis e críticas na medida correta (como no caso do incentivo público à construção de estádios privados). Segue abaixo o texto:
A Copa da Fifa
As perguntas que mais escuto são se o Brasil vai ganhar e se vai organizar uma ótima Copa do Mundo.
Imagino que os estádios estarão prontos, que serão confortáveis, bonitos, que os aeroportos e outros meios de transporte vão melhorar -piorar não tem jeito-, que os turistas serão bem recebidos (o brasileiro é gentil), que não haverá nenhuma catástrofe e que a violência será menor que a habitual, já que os baderneiros e os marginais, de rua e de colarinho branco, também gostam de futebol. E ainda se acham patriotas.
Nada será excepcional nem tão ruim. Na África do Sul, mesmo com credencial de jornalista e ingresso, ninguém conseguiu, em um jogo, achar meu lugar marcado. Mais de uma vez, ficamos mais de uma hora para estacionar em volta do estádio, no lugar marcado. Cada funcionário dizia uma coisa.
Na Alemanha, vi jornalistas sentados no chão, trabalhando com seus computadores, porque não havia cadeira e mesa para todos.
O Ministério do Esporte e os membros do comitê da Copa não precisam ser presunçosos e dizer que o Brasil fará a melhor Copa da história. Basta fazer uma boa Copa.
De fortes empresários a ambulantes, todos querem faturar com a Copa. Duvido que
a Fifa, dona do Mundial, mesmo garantida pela Lei Geral da Copa, evite a pirataria e
a venda de produtos não credenciados.
Melhorar os caóticos aeroportos e outros meios de transporte não será legado deixado para a população. São obrigações do governo, que já deveria ter feito há muito tempo.
Problemas sempre existem em todos os países. Grave é anunciar que não haveria dinheiro público, o que não é verdade. Grave é subsidiar estádios particulares. Grave são os elefantes brancos, como os de Manaus, Natal, Brasília e Cuiabá, onde não há um time na Série A do Brasileiro. Grave são as desapropriações de casas humildes, em volta de estádios que serão, depois, pouco usados. Grave são os atrasos nas obras, que aumentam os custos e facilitam as falcatruas.
E o Brasil vai ganhar a Copa? Em casa e se melhorar, terá boas chances. Absurda é a tabela. Se o Brasil não chegar à final, o que hoje seria o esperado, não haverá um único jogo da seleção no Maracanã.
Em casa, não basta ganhar. O torcedor vai exigir excelente futebol. Vencer do jeito do Chelsea não será suficiente. O Barcelona perdeu seis claríssimas chances de gol. Mesmo assim, os analistas de resultados disseram que a defesa do Chelsea anulou o Barcelona.
21 de abril de 2012
A lucidez do ateísmo consciente
Em tempos nos quais o posicionamento de alguns ateus beira o fanatismo religioso, ler o artigo de Drausio Varella, publicado neste sábado, na Folha de S.Paulo, serve de alento e como reafirmação de uma postura que ainda é muito mal vista na sociedade. Faço das palavras do médico as minhas, sem retirar uma vírgula sequer.
Leia abaixo o texto:
Intolerância religiosa
Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade - quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.
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16 de abril de 2012
Alegoria cantada

O ano de 1905 na Rússia não foi dos mais pacatos. Para muitos historiadores, a data marca o início do processo que culminaria na Revolução de 1917. De qualquer forma, é indiscutível afirmar que o país vivia uma grande crise política, com protestos por toda a parte e grande descontentamento em relação ao czar Nicolau II.
É também em 1905 que transcorre a história fictícia de “O violonista no telhado”, bonita história já registrada em filme de sucesso e também em um histórico musical da Broadway, baseada em contos de Shalom Aleichem e atualmente em cartaz em São Paulo. A trama se passa na fictícia Anatevka, onde convivem as comunidades judaica e cristã ortodoxa, de acordo com as tradições estabelecidas há séculos na região.
No musical em cartaz, cabe a José Mayer, o maior comedor da teledramaturgia nacional, o papel do leiteiro judeu chamado Tevye, protagonista de toda a história. O ator canta (sem grandes estripulias e com certa dignidade) e se sai muito bem nos momentos cômicos e dramáticos exigidos pelo personagem, às voltas com os arranjos casamenteiros de três de suas cinco filhas.
Maiores detalhes da história são desnecessários, para evitar a fadiga e qualquer spoiler (a peça ainda fica um bom tempo em cartaz; o filme, de 1971, é encontrado nas boas locadoras). Ao longo de suas mais de duras horas, aparecem, de forma discreta, críticas pontuais e contundentes ao regime política da época, de forma a demonstrar que boa parte da população não via no czar a autoridade necessária para comandar uma nação. Contundência maior recai sobre a situação vivida pelos judeus em toda a Rússia na transição do século 19 para o 20. Nesse sentido, a fictícia Anatevka representa muito bem o antissemitismo sofrido por milhões de cidadãos, alvos preferenciais de um governo em decadência, que os escolheu como bodes expiatórios para justificar seus seguidos insucessos, décadas antes do Holocausto.
Pitadas de história à parte, “Um violonista do telhado” se destaca também por uma produção de extremo bom gosto, com cenários que ajudam a compor, com maestria, as sensações transmitidas pelos números musicais, sejam os mais leves ou aqueles mais carregados de conteúdo dramático. No total, são 44 atores, que fazem uso de 160 figurinos de época, ao som de uma orquestra de 17 músicos.
No final das contas, o fundo musical que aparece em diversos momentos da peça fica na cabeça por vários dias. Clicando aqui, você pode ter uma leve amostra. Para quem mora em São Paulo, a peça está em cartaz no Teatro Alfa até o dia 15 de julho. Abaixo segue um vídeo com os instantes iniciais da peça, no qual é possível notar o clima do espetáculo.
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