31 de maio de 2008

Música popular?

Segue abaixo reportagem bem bacana do Pedro Alexandre Sanches publicada na edição desta semana de CartaCapital. Não concordo completamente com a idéia de isolacionismo em torno da MPB, mas como o repórter ouviu muita gente interessante a respeito, vale a pena reproduzir o texto por aqui.

Música popular?

Criada nos anos 60, a sigla MPB expressa hoje a nostalgia e os preconceitos da porção letrada do Brasil

Era uma vez uma sigla chamada MPB. Designava uma tal “música popular brasileira” e se tornou moeda corrente a partir dos anos 1960, quando adotada por toda uma geração universitária de compositores, cantores e admiradores. Décadas adiante, a sigla pouco a pouco se encastelou. Isolou-se de gêneros supostamente “inferiores”, blindou-se como num condomínio fechado de bairro nobre. Entrou em crise, até de identidade. Quem faria a MPB de 2008? O rococó Djavan ou a simplória Banda Calypso? O bissexto João Gilberto ou a onipresente Ivete Sangalo? O que seria MPB em 2008? O banquinho-e-violão em redutos exclusivos do eixo Rio-São Paulo ou o pop que corre por fora da indústria e lota arenas nas periferias do Brasil?


A resposta seria tudo isso ao mesmo tempo, caso a sigla MPB tivesse resguardado o alcance do pomposo nome composto. Talvez não seja quase nada, tal é a tendência ao confinamento que passou a acompanhar os termos “música”, “popular” e “brasileira”, quando colocados lado a lado. “Criou-se esse termo MPB como se fosse um tipo de música, o que acho inadequado, apesar de estar consagrado”, afirma o historiador cearense Jairo Severiano, autor de um livro recém-lançado que, por sinal, leva no título o termo fatídico, Uma História da Música Popular Brasileira das Origens à Modernidade (Editora 34, 504 págs., R$ 64). “É uma sigla. Deveria ser usada para designar a música de qualquer gênero, moderna ou antiga, boa ou ruim. Mas passou a ser a música popular brasileira de elite.”


Hoje automático, o uso da expressão perde de vista o fato de que a sigla é uma invenção, e que nem sempre houve sentido em usá-la, ou mesmo em discriminar a música entre “popular” e “erudita”, como se fossem pólos opostos, incompatíveis. O estudo de Severiano parte do compositor mulato Domingos Caldas Barbosa, cantor de modinhas e lundus para a aristocracia de Portugal nos anos 1700. Não era rotulado de “popular” ou “erudito”, mas, como relata Severiano, atraía manifestações iradas como a do historiador português Antônio Ribeiro dos Santos: “Eu não conheço um poeta mais prejudicial à educação (...) do que este trovador de Vênus e Cupido”.


Segundo Severiano, a querela entre “populares” e “eruditos” já era pronunciada na década de 1930, época de avanço do cinema falado, rádio, disco e a primeira grande geração de músicos “populares” no Brasil, de Silvio Caldas e Carmen Miranda. “Fui adolescente nos anos 40, e na minha família havia um preconceito terrível contra a música popular, como havia na classe média e principalmente na alta. Só consideravam música o que era de concerto. Esse ente já nasceu com a conotação de inferioridade perante a música clássica.”


Espezinhada pelos ditos “eruditos”, a música “popular” iniciou sua própria trajetória de elitização em 1958, com o surgimento da bossa nova. Tom Jobim incorporou Villa-Lobos, João Gilberto absorveu o jazz e os universitários dos anos 60 deram partida à sigla MPB, que mais tarde hostilizaria subliminarmente subgêneros “menores”, como samba, rock, música caipira ou romântica. A consolidação de guetos levou criadores e consumidores a fazerem vista grossa a “detalhes” fora de lugar nas gavetas classificatórias, como a sofisticação contida em gêneros “populares” como samba e choro, ou a banalidade inerente a muitas letras da bossa nova.


De acordo com Severiano, muito da MPB operante ainda hoje tem raízes no samba-canção dos anos 50, em duas vertentes cada vez mais distanciadas uma da outra. A “moderna” nasceu da obra então acariocada do baiano Dorival Caymmi e de nomes como Lúcio Alves e Dolores Duran. Originou a bossa nova, que derivou para a canção de protesto, a tropicália e a MPB. A vertente “tradicional”, de autores como Herivelto Martins e Lupicinio Rodrigues, seguiria com os cantores Anísio Silva e Altemar Dutra e redundaria, segundo ele, na música “cafona” e “brega” das décadas seguintes.


A distinção oculta um curioso paradoxo. Cafonas e bregas (e sertanejos, pagodeiros, axezeiros, funkeiros) formulariam a música efetivamente mais difundida do Brasil. Mas o termo “popular” seria seqüestrado por segmentos primeiro mais sofisticados, depois mais herméticos e por fim menos populares.


Diretor da gravadora paulista Trama, João Marcello Bôscoli sai em defesa do “P” de MPB: “Entendo o termo ‘popular’ não como comercial ou de massa, mas como não erudito. É sabido que a maioria dos artistas da MPB não tem compromisso em construir hinos à multidão”.


Ele lamenta a dissolução da sigla: “A bossa nova foi feita e depois não houve prosseguimento. O mesmo aconteceu com a tropicália. A indústria fonográfica perdeu a bossa e a tropicália, e também a MPB. Mas a indústria não é diferente do resto do País. Somos um país que não consegue construir”. E defende a permanência do termo: “MPB é um nome legal, embora hoje lembre música de festival, ou sofisticada, feita pela elite daqueles artistas que a gente sabe quais são. Mas vale a pena pegar a sigla e jogar fora? Só se vai gastar dinheiro para criar outro nome”.


O jornalista e escritor paulista Zuza Homem de Mello sustenta que são menos distintos atualmente os limites entre MPB e música clássica: “A barreira é muito menor. A música de Luiz Tatit ou Guinga aproxima-se muito mais da de Villa-Lobos ou Radamés Gnattali que daquilo que hoje tem apelo pop, que é Ivete Sangalo, Ana Carolina. A atração delas é numa outra região, às vezes você nem sabe o que as letras querem dizer”.


Ele situa a MPB perto do jazz, como música para ser ouvida, e não dançada. E mais ligada, talvez, dos gabinetes que das multidões. Outro paradoxo, pois o jazz nasceu dançante, “popular”, como o próprio Zuza esmiúça em Música nas Veias (Editora 34, 360 págs., R$ 46). A MPB talvez repetisse esse destino, de lenta viagem da explosão comercial à conversão em peça de museu. E os salões que já tocaram jazz, gafieira e rock hoje tocam funk e tecno. “A música dançante sempre foi mutante. O que é hoje não será amanhã”, avalia.


O antropólogo Hermano Vianna reflete sobre a elitização da música “popular” com indagações: “Será que a MPB não faz mais canções populares? Mas, se o CD da Vanessa da Mata é MPB, aquela canção com Ben Harper (um pop de alta rotação no rádio) não é popular? E será que MPB significa alguma coisa ainda? Significa o quê?” E arremata: “A quem interessaria uma definição clara de MPB? Às lojas de discos que não mais existem?”


A cantora Olivia Hime, diretora da gravadora carioca Biscoito Fino, diz receber diariamente cinco discos de jovens que afirmam fazer MPB. “Querem dizer que fazem música nos moldes de Chico Buarque e Edu Lobo, e não axé, rock ou hip-hop.” Ela reconhece os paradoxos da sigla: “É contraditório. Essa música passa a não ser popular, pois não é mais cantarolada”.


Para quem não se ajusta bem aos cânones da MPB, o sentimento parece ser de inadaptação. “Existe uma separação, né?”, pergunta a compositora e cantora carioca Teresa Cristina, próxima ao samba. “Leio em notinhas e pesquisas por aí, ‘Chico Buarque, compositor’, ‘João Nogueira, sambista’. ‘João Bosco, compositor’, ‘Nei Lopes, sambista’. Quem escreve nem se dá conta da separação.” Preocupada com a música feita mais “para separar” que “para unir”, acrescenta: “Sinto que há uma resistência de assumir o samba como MPB, que as pessoas gostam dessa divisão como idéia de sofisticação. ‘Tal coisa não é mais samba, virou MPB porque se sofisticou’”.


“Essa sigla me incomoda muito, porque o Brasil que vejo é muito diferente. A MPB vende um Brasil que não é o Brasil, com papel celofane, sofisticado”, reivindica o paulista Leandro Lehart, ex-integrante do grupo de pagode Art Popular e entusiasta da mistura de samba com outros gêneros. “MPB é como se fosse um clube, a que algumas pessoas têm acesso e outras, não. Ouvi de radialista que minha música não toca em rádio de MPB porque sou pagodeiro, ‘as pessoas vão se incomodar de ouvir aqui’. Não faço questão de fazer parte dessa sigla, ela não acrescenta nada. Meu trabalho é popular, de massa”, afirma, do alto de agenda de shows lotados Brasil afora, nos quais vende o CD Mestiço, lançado artesanalmente, sem gravadora.


“Minha geração usou o samba porque pandeiro é mais barato que bateria, um cavaquinho custa menos que um contrabaixo. Sou fã de Raul Seixas, James Brown, Djavan, e economizava para comprar os tamborins de plástico que o Mappin anunciava na tevê”, completa, remetendo à cisão social por trás das músicas.


“Nunca na minha vida usei esse termo. Podem me colocar em qualquer outro lugar, só não quero me localizar na MPB”, afirma o paulista Luiz Tatit, cantor, compositor, acadêmico e escritor. Autor de música elaborada na tradição de Noel Rosa e Lamartine Babo, ele explica a aversão ao termo: “Para mim, MPB tem uma conotação muito conservadora. Denota algo que parece de qualidade, mas é estéril, porque não pode se misturar, não pode ser rap, nem reggae, nem rock”.


Refere-se a uma “atitude erudita” no topo da MPB e faz ressalvas ao modo como se costuma discriminar canção “sofisticada” de “comercial”. “A música brega é muito mais acessível e tem sempre um grande público, uma perenidade absoluta. A MPB se encaixa num segmento de elite, como se fosse mais elaborada. E não é, porque, quanto à melodia, é tudo mais ou menos a mesma coisa. A avaliação da qualidade muitas vezes está fora da música, é ideológica.”


Zuza Homem de Mello faz avaliação de ouvidos abertos ao futuro: “Tenho notado que, no interior do Brasil, há manifestações de jovens voltados à música local, ao folclore, de uma seriedade incrível. São violeiros de um preparo técnico como nunca vi antes. No Rio e em São Paulo, vivemos cercados, numa redoma, e não vemos nada disso”.


O campo de força da chamada “qualidade” musical foi tensionado de modo dramático pelos tropicalistas de 1968. “Minhas tias diziam: ‘Esse negócio de vocês não é música, é ritmo’. Para elas, éramos a barbárie”, diz o baiano Tom Zé. E lembra um episódio do festival de 1969: “Tínhamos o gosto pela música caipira, que não se podia contar a ninguém. Quando eu e os Mutantes fizemos 2001, uma música caipira moderna, ela foi apaixonadamente odiada por Hebe Camargo. Ela não podia nem ouvir, porque era o passado que não queria lembrar. A platéia reagiu como Hebe, e 2001 teve primeiro lugar no júri e último no júri popular”. A dissociação acontecia também na cabeça do público, que afinal podia rejeitar 2001 porque era “caipira”, ou porque era “moderna”, ou por ambos os motivos, espalhados por um salão onde a música tentava simular uma democracia, em plena ditadura.


Dois anos antes, em 1967, o bossa-novista Sérgio Ricardo quebrara o próprio violão durante a apresentação do samba Beto Bom de Bola, vaiado por uma platéia participativa e radical. Era tempo de guerra e, como assinala Tom Zé, “pela teoria da guerra, países vizinhos sempre brigarão”. A MPB iniciava a viagem da glória ao gueto e os estilhaços das batalhas de então se fazem sentir no território de facções beligerantes que em 2008 a música brasileira ainda não consegue deixar de ser.

29 de maio de 2008

Na verdade...

Após anos e anos a fio ouvindo o tenebroso "entendeu?" ao final de frases em que não havia nada para entender, já reparou, caro(a) leitor(a), como a nova praga lingüística, ao menos na cidade de São Paulo, é iniciar ou encerrar frases com "na verdade"?

Durante o auge do "entendeu?" – que ainda é usado por muita gente – eu tentava descobrir qual era sua origem. Em vão. O mesmo pelo jeito vai acontecer com o "na verdade".

Dia desses, durante a apresentação de um seminário na faculdade, uma singela colega teve a façanha de iniciar mais de 20 frases com "na verdade". Seu vocabulário chato já era motivo de risos tímidos quando a contagem chegava às 30 frases. Aí saí da sala e fui tomar um chocolate...

No auge do desespero, há algumas semanas, tentei identificar a origem de alguma dessas pragas em novelas, programas de humor de nível discutível, mesas redondas esportivas... e nada! Cheguei a ficar prestando atenção em algumas séries de TV americas... e nada! – apesar de alguns "actually" e "you understand?" exagerados e no mesmo tom chato usado por aqui.

É uma briga na qual já entro como perdedor, mas da qual não desisto. Alguns colocam o "com certeza" na parada, mas acho que os singelos "sim" e "arrã" já conseguiram suplantá-lo. Morte ao "na verdade"! Chega de "entendeu".

25 de maio de 2008

“Descobrindo” Tim Maia

É difícil para alguém nascido nos anos 80 ter noção exata do quão famoso e importante foi Tim Maia, especialmente nos anos 70. Sempre tive grande simpatia pelo seu estilo bonachão e contestatório, bem como por grande parte de seus inúmeros hits. Mas admito aqui minha ignorância sobre alguns aspectos bem relevantes da vida e obra do “preto, gordo e cafajeste”, com destaque para seu vasto conhecimento musical, colocado em evidência inúmeras vezes por Nelson Motta em seu mais recente livro, todo dedicado ao cantor.

Em “Vale tudo – O som e a fúria de Tim Maia”, assim como em “Noites tropicais”, Nelson Motta desperta um bocado de inveja no leitor que gosta de música e se interessa pela cena cultural brasileira. Nos dois casos, sua narração é privilegiada pelo fato de ter sido personagem e testemunha de muitas das histórias narradas – e também por conseguir transmitir aos mais leigos por que Fulano é um grande arranjador, Sicrano é um exímio violonista e Beltrano deixa muito a desejar.

Tim Maia nunca soube ler música e só foi estudar alguma coisa de teoria nessa área depois de famoso. Apesar dessa limitação, seus ouvidos e gogó privilegiados eram capazes de transmitir aos músicos que o acompanhavam exatamente aquilo que queria como acompanhamento, seja em baladas românticas ou pegadas fortes de funk, soul e outros ritmos dançantes. E fazia bonito, de modo inventivo e ao mesmo tempo simples, na medida para o estilo “esquenta-sovaco/mela-cueca” que caracterizava grande parte de seus discos, segundo sua auto-definição.

Devido à leitura de outros livros, especialmente os dois principais escritos sobre Roberto Carlos (“Roberto Carlos em detalhes” e “Como dois e dois são cinco”), as informações básicas sobre a adolescência de Tim Maia (quando conviveu bastate com o Rei), os cinco anos vividos nos Estados Unidos e o complicado início de carreira no Brasil já não eram novidade, mas ganharam uma riqueza de informações essenciais para tentar entender a controversa personalidade do cantor. Vem desse período sua iniciação no chamado “triatlon” – noites regadas a maconha, cocaína e Chivas 12 anos –, hábito que o acompanharia em maior ou menor grau até as últimas semanas de vida. É na fase norte-americana também que Tim sofre algumas das mais fortes influências musicais de sua vida, ao ter contato com o som da Motown e de vários expoentes que estavam colocando a rapaziada dos guetos pra dançar nas grandes cidades dos EUA, da mesma forma como o Síndico viria a fazer em inúmeros bailes na zona norte carioca e em outras regiões carentes pelo Brasil afora.

A relação de Tim com as mulheres, com os credores, com as gravadoras, com os contratantes de shows, com os parentes, com os músicos e consigo mesmo é tensa, muito tensa. Mas a narrativa de Nelson Motta consegue intercalar essa tensão com incontáveis causos hilariantes, que fazem a leitura ser bem ágil, sem exigir nenhuma concentração ou silêncio. Bom pra se ler em qualquer canto, seja com “Sossego”, comendo “Chocolate” ou num “Dia de domingo”. “Vale tudo”.

23 de maio de 2008

Let's talk about sex!

Ouvi falar pela primeira vez de Alfred Kinsey ao ler “A mulher do próximo”, livraço de Gay Talese que aborda, principalmente, a evolução da sexualidade na sociedade norte-americana. À época fiquei curioso e vi que Hollywood já havia feito um filme a seu respeito, mas passou um bom tempo até que eu pudesse assisti-lo. Pois bem. Assisti a ele hoje.

Até se tornar famoso, Kinsey (interpretado no filme por Liam Neeson) era um respeitado pesquisador da área de biologia animal. O que o tirou do anonimato nacional foram seus trabalhos a respeito da sexualidade humana. Até hoje, pelo que o Google nos diz, suas obras são consideradas fundamentais para o entendimento da diversidade sexual. Mas, em fins dos anos 40, seu árduo trabalho foi alvo de pancadas de toda espécie, vindas de carolas a colegas cientistas, de pais de família à conservadoríssima direita do país, já articulada na lamentável caça às bruxas dos tempos macarthistas.

Inicialmente, Kinsey queria apenas que os estudantes tivessem acesso a aulas de educação sexual que se aproximassem – ainda que pouco – da vida real. A informação sexual “séria” disponível nos EUA à época era um misto de preceitos religiosos com informações científicas que hoje fazem rir. Jovens adultos, recém-chegados à faculdade, criam que sexo oral causava infertilidade; masturbação para o homem gerava impotência e, para as mulheres, orgasmos solitários clitorianos eram doenças ligadas à loucura; temas como homossexualismo e adultério eram caso de polícia em mais de 40 estados da “maior nação do mundo”.

A ignorância do norte-americano médio levou o cientista a comandar a maior pesquisa já feita até então sobre o comportamento sexual humano. Caetano Veloso diria, muitos anos depois, em “Vaca profana”, que “de perto ninguém é normal”, e o chamado Relatório Kinsey veio confirmar essa idéia. Foram ouvidas dezenas de milhares de pessoas e os livros publicados a partir dessas informações se mostraram preponderantes para inúmeras pequenas revoluções comportamentais na sociedade norte-americana, cujo ápice pôde ser visto na década de 1960, marcada pelo seu amor livre, pelo movimento hippie e toda a onda da contracultura que influencia grande parte do mundo até hoje.

A partir do Relatório, a América descobriu que “92% dos seus homens e 62% das suas mulheres se masturbava. E que 37% dos homens e 13% das mulheres já tinham tido uma relação homossexual que lhes tinha proporcionado um orgasmo. Neste caso, os fatos foram noticiados pela imprensa sensacionalista como uma verdadeira bomba”, segundo a Wikipedia. Pedofilia, zoofilia, sexo grupal e outros temas delicados eram, de acordo com a pesquisa, bem mais comuns do que imaginava o mais perverso dos norte-americanos.

Kinsey se tornou capa de Time e outras publicações de massa, quase sempre em tom crítico. Membros da família Rockfeller foram obrigados a depor no Congresso e explicar por que sua fundação financiou tais estudos. O aspecto pessoal da vida do cientista foi devastado, bem como o de sua família. Seu nome, ao menos, entrou para a história.

22 de maio de 2008

O quarto grande trauma futebolístico

1994 – Palhinha erra o pênalti na decisão contra o Velez Sarsfield, em pleno Morumbi. O sonho do tri da Libertadores fica para o futuro. A visão da molecada – acostumada a ganhar tudo – saindo do estádio é algo que vou levar para meu caixão de boleiro.

1999 – Brasileirão de 1999. Contra o Corinthians, Raí (justo ele!) perde dois pênaltis, defendidos por Dida. Não era final, mas doeu. Demais.

2000 – Final da Copa do Brasil, Mineirão, contra o Cruzeiro. Após empatar por 0 a 0 no Morumbi, o Tricolor abre o placar perto dos 30 minutos do segundo tempo. O empate era nosso. Mas, no último minuto, Giovanni virou, de falta, após Müller (justo ele parte 2) gritar “chuta na barreira”. O novato atacante chutou e a bola passou exatamente onde o ex-são-paulino havia indicado.

2008 – A derrota na final da Libertadores de 2006 não foi pior do que a eliminação de ontem no Maracanã. Deveria ser proibido para menores e homens de coração frouxo perder com gol no último minuto. Nas outras três ocasiões, chorei de raiva. Ontem foi quase, mas de tristeza.

15 de maio de 2008

Agora vai?

Enquanto o blog não volta decentemente à ativa, segue outro texto bacana...

Que o grande Chico me perdoe...

Pasquale Cipro Neto

Estive na penúltima edição do "Altas Horas", comandado por Serginho Groissmann. Entre as tantas boas perguntas vindas da atenta platéia, uma me fez cometer um lamentável deslize. Explico: uma garota me pediu comentários sobre letristas da nossa música popular. De imediato, avisei que era grande a possibilidade de eu cometer injustiças; depois, comentei o belo trabalho de vários dos nossos poetas musicais. E não é que sofri um apagão? Simplesmente me esqueci de Chico Buarque...
Lamentável!

O mundo viu o programa, e, passados mais de dez dias, a cobrança não termina ("E o Chico?"). Ainda bem que tenho o passado -colunas e mais colunas, programas e mais programas na Rádio e na TV Cultura- como prova de que sempre exaltei o brilhantismo poético-lingüístico de Chico Buarque. Mas não custa aproveitar a ocasião para aumentar o exemplário sobre o autor de letras do quilate de "Até Pensei", "Paratodos", "Construção", "Sábia", "Ode aos Ratos" e outras tantas que analisei neste espaço, no rádio ou na tevê.

Vamos lá, pois. Faz tempo que quero escrever sobre a letra de "Subúrbio", particularmente sobre estes versos, que iniciam a canção: "Lá não tem brisa / Não tem verde-azuis / Não tem frescura nem atrevimento / Lá não figura no mapa / No avesso da montanha, é labirinto / É contra-senha, é cara a tapa".

Releia o trecho, por favor, e note o que Chico faz com o vocábulo "lá". Normalmente usado como anafórico (termo que se refere a um elemento anterior - "Estive em Roma e lá encontrei..."), o advérbio "lá" inicia a letra de Chico retomando... Pois o golpe de mestre está aí. Teoricamente, o "lá" da letra retoma o título da canção, que, como já vimos, é "Subúrbio", mas o título é o título, não é uma palavra do texto, não aparece na letra antes de "lá" e, salvo engano, não aparece em nenhum momento da letra. Com isso, o que seria anafórico parece tornar-se catafórico (termo que se refere ao que será enunciado adiante), ou seja, quem ouve a música sem saber o título pode logo se perguntar "onde é lá?".

Mas o fato é que, no fundo, no fundo, o "lá" acentua a idéia de abandono, de isolamento do subúrbio e de sua gente, "aquela gente toda". O ápice do brilho dos versos iniciais da letra de Chico, no entanto, ainda não chegou; chega quando, "desadverbializado", o "lá" vira substantivo -e sujeito do quarto verso ("Lá não figura no mapa"). O nome de lá é "lá"! (E "Lá tem Jesus / E está de costas".) Registre-se que Chico "desanonimiza" o "lá" ao identificar os integrantes do subúrbio ("Fala, Penha / Fala, Irajá / Fala, Olaria" / "Fala, Acari").

A competência poético-lingüística de Chico lhe permitiu criar um raro caso de derivação imprópria, processo pelo qual se forma uma palavra não pelo acréscimo de prefixo ou sufixo (feliz/infeliz/felicidade) ou pela eliminação de sufixo e acréscimo de vogal temática (atacar/ataque), mas por meio da mudança da categoria gramatical sem a mudança da forma (em "Meu barracão no Morro do Salgueiro tinha o cantar alegre de um viveiro", da letra de "Chão de Estrelas", de Orestes Barbosa -a música é de Silvio Caldas-, o normalmente verbo "cantar" passa a substantivo, o que também é exemplo de derivação imprópria).

Vista sob o contexto da poesia, a criação morfossintático-semântica -única!- de Chico é simplesmente memorável. E viva Chico! É isso.