31 de maio de 2012

Tiririca, um deputado

Desde a época em que Tiririca foi eleito deputado federal, em 2010, muito me incomodavam as críticas que parte do eleitorado fazia ao resultado fabuloso que o palhaço obteve. Seria ótimo ver um Congresso lotado de figuras preparadas e atuantes como Aldo Rebelo e Luiza Erundina (para citar dois que já mereceram meu voto), mas a verdade é que o intérprete de "Florentina" não fica devendo nada a pelo menos 60% de seus colegas de Câmara Federal. 

Feito o parágrafo enrolatório, seleciono aqui alguns trechos do texto e de frases ditas por Tiririca em um perfil bem bacana publicado pela revista "piauí". Para ler a íntegra do texto (está bacana mesmo, insisto!), clique aqui.

“Não levo o menor jeito para a coisa. Já entendi como funciona, não sou bobo, mas não gosto desse jogo de interesses. Certos caras brigam na frente das câmeras e depois se abraçam. Eu não consigo ser falso assim. E aqui a sinceridade não é muito bem-vinda”.

“É difícil passar o dia inteiro trancado no Congresso, o pior é que tem dia que nem votar a gente consegue. Um partido não quer, a ordem do dia entra em obstrução e cai a porra toda. No início não entendia por que não podíamos sair votando tudo logo, se a gente votasse direito dava para fazer muita coisa”.

“Eu achava que ninguém fazia nada, mas que eu ia conseguir fazer muita coisa por causa da minha votação. Não tem como, o sistema é muito engessado. Eu te digo o que um deputado federal faz: trabalha muito e produz pouco”.

“Sabe por que eu coloquei dente? Porque meus covers estavam arrancando os dentes para ficar mais parecidos comigo".

Quando soube que os filhos estavam contando vantagem na escola por andar de “carrão e motorista”, Tiririca tratou de comprar um Fusca vermelho bem antigo. Instruiu o motorista que só levasse e buscasse os filhos de Fusca e que gritasse bem alto o nome completo dos três no portão da escola: “Erilândia Márcia, Antonio Everardo, Florentina Evellyn.”

“Aquilo lá é uma fábrica de loucos, ninguém presta atenção. Enquanto um deputado está discursando, tem um comendo, outro dormindo, um terceiro que pede a palavra para reclamar que as tomadas não estão funcionando. Aí o próximo a falar faz o mesmo discurso que o colega acabou de fazer e nem percebe".

“Eu sei, tem gente que não aceita que um palhaço de circo seja o deputado mais votado do país. Mas eles têm que me engolir. Eu entrei para a história da política. Sempre vão se lembrar do palhaço que teve aquela votação”, diz Tiririca. Olhando ao redor, não é fácil sustentar que ele seja a maior piada da política brasileira.

30 de maio de 2012

Wagner Moura, Legião Urbana e um bocado de inveja


O cara é politizado, ganha suspiros do mulherio por onde passa, protagonizou o filme de maior bilheteria da história do cinema nacional (cuja atuação gerou um debate importantíssimo sobre segurança pública no país), encarou interpretar “Hamlet” no teatro, é um dos símbolos da nova dramaturgia brasileira e, entre otras cositas más, alcançou um patamar que lhe permite escolher quais trabalhos quer colocar em prática e o que é descartável para sua carreira.


Por conta de tais atributos, Wagner Moura se tornou um sujeito de admiração quase unânime no Brasil. Essa imagem só veio a ser arranhada recentemente, quando houve o anúncio de que ele encararia subir aos palcos como cantor para um tributo à Legião Urbana, ao lado dos parceiros de Renato Russo na banda.

Fãs da Legião colocaram todos os pés atrás possíveis. Renato Russo, para os admiradores mais xiitas da banda, é quase um messias, alguém insubstituível. Sendo assim, Capitão Nascimento algum teria envergadura moral para assumir o microfone à frente de Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos.

Pura inveja. O fã da Legião, em geral, é um sujeito que sabe de cor as letras das músicas e está sempre disposto a soltar sua voz em qualquer rodinha de violão ou karaokê – de preferência em imitações quase sempre desastrosas do finado vocalista. Falo com a consciência tranquila e certo conhecimento de causa, embora provavelmente já não seja mais capaz de cantarolar os 159 versos de “Faroeste Caboclo”. Apesar disso, se estivesse no lugar de Wagner Moura, não hesitaria nem por um segundo em fazer uma homenagem dessa natureza.

Apresentação honesta

No total, 25 músicas fizeram parte do tributo. Quase 16 anos após a morte de Renato Russo, Bonfá e Dado seguem como músicos apenas bacaninhas, muito abaixo de contemporâneos como Charles Gavin, Bi Ribeiro, João Barone ou Edgard Scandurra. Wagner Moura teve um desempenho honesto, com uma presença de palco bastante segura (demorou umas três músicas para se soltar), respeitando os limites de sua voz e com toda pinta de que estava se divertindo absurdamente. Mais importante: demonstrou um respeito profundo à obra da Legião e não escondeu que estava ali para reverenciar uma banda importantíssima durante grande parte de sua vida (exatamente da mesma forma que qualquer fã adoraria fazer).

Quem montou a lista do show também mandou bem, pela preocupação de selecionar ao menos uma canção de cada disco (não ficou de fora nem mesmo “Uma outra estação", lançado após a morte de Renato Russo). Em “Andrea Doria”, “Daniel na cova dos leões”, “Há tempos”, “Perfeição” e “Sereníssima” Wagner Moura mandou especialmente bem.

Ao final, manteve-se a expectativa criada anteriormente ao show pelos fãs mais sensatos: um sujeito de cabeça boa, inteligente e sem a necessidade de tentar se passar por bom cantor não subiria ao palco se fosse proporcionar um vexame grotesco. Ponto para o Capitão Nascimento!

A lista de músicas escolhida (com seus respectivos discos) foi a seguinte:

- Tempo perdido - DOIS
- Fábrica - DOIS
- Daniel na cova dos leões - DOIS
- Andrea Doria - DOIS
- Quase sem querer – DOIS
- Eu sei – QUE PAÍS É ESTE?
- Quando o sol bater na janela do teu quarto – QUATRO ESTAÇÕES
- A Via Láctea – A TEMPESTADE
- Esperando por mim - A TEMPESTADE
- Índios – DOIS
- Monte Castelo – QUATRO ESTAÇÕES
- O teatro dos vampiros – V
- Geração Coca Cola – LEGIÃO URBANA
- Ainda é cedo – LEGIÃO URBANA
- Baader-Meinhof Blues – LEGIÃO URBANA
- Sereníssima – V
- Se fiquei esperando meu amor passar – QUATRO ESTAÇÕES
- Há tempos – QUATRO ESTAÇÕES
- 1965-Duas Tribos – QUATRO ESTAÇÕES
- Perfeição – O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
- Teorema – LEGIÃO URBANA
- Antes das seis – UMA OUTRA ESTAÇÃO
- Giz – O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
- Pais e filhos – QUATRO ESTAÇÕES
- Será – LEGIÃO URBANA

URBANA LEGIO OMNIA VINCIT

10 de maio de 2012

Pelé, Roberto Carlos e Chico Anysio no mesmo palco

Sim, isso já aconteceu. O ano: 1972. A ocasião: o programa de maior destaque na TV brasileira naqueles idos: o de Flávio Cavalcanti.

O relato desse momento inusitado está em um livro estranho: “Um instante, maestro!”, de Léa Penteado. “Estranho” porque não se trata de uma biografia pura e simplesmente ruim, mas sim de um texto elaborado por alguém que vê no antigo apresentador uma espécie de pai sem qualquer defeito; uma autora que, por ter sido tão próxima de seu personagem, se mostra incapaz de manter o distanciamento mínimo para escrever sobre um nome fundamental da história da TV no Brasil.

Segundo a autora, que foi por mais de uma década secretária particular do apresentador, Pelé, Roberto Carlos e Chico Anysio eram as personalidades mais importantes do Brasil em 1972. Em maio daquele ano, numa espécie de sofá da Hebe, os três foram convidados a passar por uma situação inusitada, cujo registro em vídeo infelizmente se perdeu.

Segundo a autora, no “encontro criativo” Pelé cantou, Roberto Carlos contou piadas e Chico Anysio fez algumas embaixadinhas. A cena se tornou capa de algumas revistas e chegou a cravar 72 pontos de audiência no Ibope.

Memória traíra e surpreendente

Flávio Cavalcanti alcançou grande popularidade nos anos 60, mas sua figura me remete a uma de minhas primeiras memórias televisivas, ainda em preto-e-branco, no começo dos anos 80. Ao ler o livro, percebi, mais uma vez, que recordações infantis estão longe de ser confiáveis. Eu tinha certeza absoluta de que o apresentador havia morrido durante um de seus programas ao vivo. Na verdade ele passou mal diante das câmeras, precisou ser substituído por um de seus jurados (Wagner Montes!) e veio a morrer alguns dias depois, em decorrência de problemas cardíacos.

Mais curioso ainda é ver como certas leituras batem fundo em nossa memória. O último capítulo do livro destaca uma atitude bacana de Silvio Santos (último patrão de Flávio Cavalcanti), que simplesmente tirou do ar toda a programação do canal por 24 horas (27/05/86), em respeito ao funcionário que acabara de falecer. Aquele foi um dia em que, por algum razão, não pude sair de casa. Devo ter recorrido à TV para me entreter e foi aí que a imagem da tela do SBT, toda escura e apenas com uma faixa transversal, se fixou de maneira muito nítida em minha retina, provavelmente pelo seu ineditismo. Era como se Fausto Silva batesse as botas repentinamente, com uma diferença básica: ao invés de ligar a televisão, talvez um guri de seis anos, hoje em dia, se refugiasse no laptop do pai, em busca de um antídoto à monotonia de um dia triste.

9 de maio de 2012

A bomba-relógio do jornalismo

Esta semana tem bombado uma discussão sobre a desgraça que se tornou, para a maioria dos profissionais de jornalismo, seu cotidiano de trabalho. Abaixo, reproduzo um texto que demonstra de forma muito consistente por que há muitos motivos para preocuação.

Destaco alguns pontos:

- Os profissionais são cada vez mais jovens;
- As faculdades tradicionais são cada vez menos procuradas - a formação, portanto, tem sido pior;
- Profissionais cada vez mais subservientes e temerosos pela perda do emprego;
- Uma absurda informalidade nas relações trabalhistas;
- A desvalorização dos profissionais, em comparação a outros ramos de atividade com formação superior.

De fato, tem sido cada vez mais raro achar alguém com mais de 50 anos que exerça exclusivamente a profissão de jornalista. Poucos são os que aguentam o tranco de décadas em redações ou assessorias de imprensa. Mulheres, em especial, se veem diante do dilema de ter filhos e colocar em risco sua ascensão profissional, em um mercado em que direitos como licença-maternidade se tornaram um diferencial oferecido por muitas empresas.

Triste. Muito triste.

Leia abaixo a íntegra do texto:

Feliz na profissão?

O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem. O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa. E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país.

Por Elaine Tavares, no Observatório da Imprensa

Segundo Heloani, a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista. Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour. A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo, eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizar outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença!
Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão. Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença.

O aumento da multifunção

Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas. Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados. Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. "Os patrões adoram porque eles não dão trabalho."

Outro elemento importante desta "jovialização" da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não têm toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas. Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as "uni", que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. "É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado." Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos "velhos", fazendo mil e uma funções e afundando a profissão.

Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a ideia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc... A jornada de trabalho, que pela lei seria de cinco horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso.

Doença é consequência natural

Para os mais velhos, além da cobrança diária por "atualização e flexibilidade", há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de "plano B", o que pode causa muitos danos a saúde física e mental. Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. "Eles fatalmente adoecem, não aguentam."

O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. "Se há uma profissão que abraçou mesmo essa ideia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas."

Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. "Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes. Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química".

O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse. Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades, os jornalistas não têm tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos. Com este cenário, a doença é consequência natural.

Transformados em sócios-cotistas

O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos. No mais das vezes, estes trabalhadores não têm vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho. Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho.

Doenças como síndrome do pânico, angústia e depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens. O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes.

Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. "As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia", diz ele. Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. "É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro."

Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. "Ela chorava e dizia, `Não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá porque só juntos podemos mudar tudo isso." Rubens ainda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. "Isso sem contar as fraudes, como as de alguns jornais catarinenses que não têm qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão."

1 de maio de 2012

Dilma e os bancos: a comemoração e o temor


No Dia do Trabalhador, não houve brasileiro assalariado ou pequeno empresário que tenha ficado indiferente ao pronunciamento da presidenta Dilma na noite de ontem. Com seu estilo duro e meio sem jeito, falou aquilo que todo cidadão minimamente incomodado com os lucros dos bancos no país gostaria de dizer, ao “chamá-los na chincha” e cobrar sua parte no esforço para o desenvolvimento do país.

“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão alto. O Brasil de hoje não justifica isso”, afirmou a presidenta. “Os bancos não podem continuar cobrando os mesmo juros para empresas e para o consumidor enquanto a Taxa Básica Selic cai, a economia se mantém estável, e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos. O setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros. A Selic baixa, a inflação permanece estável, mas os juros do cheque especial, das prestações ou do cartão de credito não diminuem”, continuou.

Discurso irrepreensível. De tão bom, chego a ficar com receio do que possa vir por aí. Dilma, ao longo de seus 16 meses de mandato, já deu mostras de que não dá muita bola para certos acertos politicos tradicionais. Agora, ao bater de frente contra o mercado financeiro, encara um adversário muito mais poderoso.

A chamada “grande mídia”, para variar, já mostrou hoje de que lado está. “Veja”, por exemplo, preferiu ignorar qualquer análise sobre o que siginifica essa postura de enfrentamento e criticar Dilma, dizendo que seu gesto foi inspirado em recentes atos da presidenta argentina Cristina Kirchner.

O troco virá em breve. E virá pesado. O alvo mais fácil será a necessidade de alterar o rendimento da poupança à medida em que a taxa de juros diminuir. Apesar de serem casos completamente diferentes, a memória do confisco de Collor ganhará destaque no "Jornal Nacional", enquanto o Bradesco patrocina cada um de seus intervalos comerciais, satisfeito pelo bom trabalho do jornalismo da Globo. Representantes dos banqueiros dirão que a atitude do governo brasileiro afasta os investimentos estrangeiros, em um momento inadequado, por conta da crise financeira internacional. Miriam Leitão aparecerá no "Bom Dia Brasil" como costumeira porta-voz da turma da bufunfa. Os especialistas de sempre em finanças serão chamados a explicar a irresponsabilidade do governo do PT.

A conferir. Espero, de verdade, estar enganado. Mas desconfio que as pancadas serão bem dadas, doloridas. Se você não viu o pronunciamento de Dilma, fica a dica: