Pular para o conteúdo principal

Sobre toucas, maiôs comportados e cabelos surpreendentes

De modo geral, antes de ver pessoas que fazem parte do seu dia-a-dia com pouca (ou sem) roupa pela primeira vez, é usual vê-las com seus trajes habituais, seja no trabalho, no bar, na balada, na faculdade, na rua de casa, em qualquer lugar. O processo inverso é bem engraçado

Falo aqui de algo que tenho reparado nas aulas de natação. E esclareço, aos praieiros de plantão: o raciocínio só é válido para aqueles que não têm o prazer de viver em cidades litorâneas, onde as pessoas fazem amizades e conquistam novos amores à beira-mar com freqüência – ao menos aqueles que aproveitam a felicidade de morar no RJ, em alguma capital nordestina ou em paraísos semelhantes.

De volta ao raciocínio e às raias da piscina onde tenho dado umas braçadas: após algumas aulas, é natural surgir um relacionamento bacana entre a turma da natação – relação essa que às vezes se estende para fora da academia, pelos corredores do prédio ou pelo estacionamento. Aí vêm os choques:

- Aquela mocinha de corpo bonito e de maiô surpreendentemente cavado (todas as mulheres, exceto ela, vestem maiôs de vovó... impressionante!) usa roupas extremamente comportadas fora d'água...

- O gordinho de touca de silicone tem uma bela cabeleira grisalha, à la Richard Gere quase...

- A velhinha que sorri sem parar para o professor se veste praticamente como uma tchutchuca, tem uns cabelos coloridos e dirige um Ecosport...

- A moça que não pára de falar e dar risada durante as aulas é de uma sobriedade constrangedora fora da piscina.

Na água, enquanto o professor dá uma outra instrução, poucos sabem o que os colegas semi-nus fazem da vida, se moram perto ou longe, se vivem com ou pais ou se têm filhos. Mas todos sabem que Fulano tem uns pneus a mais, que Sicrana tem seios fartos e que Beltrana sempre se arrepia ao entrar na piscina, mesmo aquecida. Tem-se uma intimidade visual absurda, que, no final das contas, ajuda, fora da piscina, a dar mais valor a detalhes pouco comuns, como as orelhas das pessoas. Mas as orelhas (ah, as orelhas!) merecem um texto exclusivo para elas...

Comentários

Lí disse…
nada como conhecer alguém pelado né..rsrrsrs

Postagens mais visitadas deste blog

I Was Born Ten Thousand Years Ago

E eis que de repente leio o seguinte parágrafo hoje no ônibus, na biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais: “Em dezembro de 1976 a Philips colocou nas ruas o quinto LP de Paulo com Raul, Há Dez Mil Anos Atrás [...]. A canção que dava nome ao álbum tinha duas peculiaridades: uma redundância no título e o fato de ser a tradução adaptada de I Was Born Ten Thousand Years Ago , conhecida canção tradicional americana de domínio público que tinha várias versões, a mais famosa delas gravada por Elvis Presley quatro anos antes”. Foram longos minutos até chegar ao trabalho e procurar no YouTube a versão original da música. E bateu uma certa sensação de ignorância por gostar de ambos (Elvis e Raul) e não saber que a longa letra é uma adaptação/tradução/homenagem. Sem mais delongas, seguem abaixo o vídeo e a letra original, com a ressalva de que há mais de uma versão para I Was Born Ten Thousand Years Ago : I WAS BORN ABOUT TEN THOUSAND YEARS AGO (Traditional - Adapted by Elvis Presl...

Wagner Moura, Legião Urbana e um bocado de inveja

O cara é politizado, ganha suspiros do mulherio por onde passa, protagonizou o filme de maior bilheteria da história do cinema nacional (cuja atuação gerou um debate importantíssimo sobre segurança pública no país), encarou interpretar “Hamlet” no teatro, é um dos símbolos da nova dramaturgia brasileira e, entre otras cositas más , alcançou um patamar que lhe permite escolher quais trabalhos quer colocar em prática e o que é descartável para sua carreira. Por conta de tais atributos, Wagner Moura se tornou um sujeito de admiração quase unânime no Brasil. Essa imagem só veio a ser arranhada recentemente, quando houve o anúncio de que ele encararia subir aos palcos como cantor para um tributo à Legião Urbana, ao lado dos parceiros de Renato Russo na banda. Fãs da Legião colocaram todos os pés atrás possíveis. Renato Russo, para os admiradores mais xiitas da banda, é quase um messias, alguém insubstituível. Sendo assim, Capitão Nascimento algum teria envergadura moral para assumir o ...

O dilema dos EUA: resgatar o passado ou construir um novo futuro?

RESENHA DE "ESTAS VERDADES", DE JILL LEPORE Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 2008, utilizando-se de um slogan que ganhou fama mundial: “Change”. Nem durante a campanha eleitoral e tampouco no decorrer de seus dois mandatos foi possível entender com clareza qual seria essa mudança. Em 2016, Donald Trump conseguiu ser muito mais explícito ao prometer que tornaria a América grandiosa novamente. O empresário e apresentador de TV optou pelo resgate de valores do passado estadunidense para atingir em cheio ― e com sucesso ― o cidadão insatisfeito com o presente incerto deste início de século 21. Após oito anos de ações abstratas do governo Obama, seu sucessor não se furtou em propor uma série de políticas xenófobas, segregacionistas e protecionistas para chegar à Casa Branca.   Desde o primeiro dia de seu mandato, pairaram sobre Trump nuvens de ameaças à democracia dos Estados Unidos. Seu desastroso adeus ― marcado pela tentativa de autogolpe em 6 de janeir...