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Kane e as derrotas de Orson Welles

Ano sim e outro também aparecem por aí as velhas listas com os melhores filmes da história. São raras aquelas em que “Cidadão Kane” não aparece ao menos no top 3. Para muita gente que entende do ramo, nada mais justo, em especial por seus aspectos técnicos revolucionários e sua narrativa inovadora. Há um ponto, no entanto, que é pouco abordado e o engrandece ainda mais: sua contextualização política em um período delicadíssimo para a história dos Estados Unidos e de todo o planeta. “Kane” foi planejado e produzido em meio aos anos que marcaram a ascensão de diversos regimes totalitários ao redor do mundo. Em 1941, ano de sua estréia, a França estava ocupada pela Alemanha nazista, a Europa se encontrava em polvorosa e os Estados Unidos, ainda se recuperando da crise econômica da década anterior, viviam o início de sua predominância política em nível mundial. Se por um lado o governo Roosevelt se destacou por uma série de políticas progressistas, os anos de transição entre as décadas de ...

Trabalho extraordinário sobre um lixo interno

Os caras que costumam ter bons palpites sobre os vencedores do Oscar cantaram a bola: era impossível algum filme tirar a estatueta de melhor documentário de “Trabalho interno” neste ano, mesmo diante do apelo de “Lixo extraordinário” e de outras produções simpáticas. Tão bacana quanto a premiação, no entanto, foi o discurso vitorioso do diretor Charles Ferguson durante a cerimônia em Los Angeles: “Perdoem-me, mas eu preciso começar dizendo que três anos após a horrível crise financeira causada por uma grande fraude, nenhum executivo ainda foi para a cadeia”. A maior parte do filme é dedicada a duas ideias básicas: (1) os Estados Unidos são governados por Wall Street e (2) a crise de 2009 poderia ter sido evitada caso a farra financeira iniciada nos anos 80 tivesse algum nível de regulamentação. Tudo perfeito, com uma única ressalva: somente nos minutos finais o diretor faz uma análise sobre o que são os Estados Unidos hoje, pós-crise e depois de três décadas desastrosas. É gritante a d...

Pescoçada

Metrô lotado. À minha frente, uma moça baixinha manda um SMS: "Estou presa na 23, tudo parado. Me espere em casa. Te amo". Ao desembarmos na estação Paraíso, junto com quase todo o trem, um cara a abraça e dá um beijo daqueles. Ela fala algo no ouvido do cara e os dois saem dando risada...

27 horas

Segue abaixo texto do Marcio Pochmann, presidente do Ipea, sobre hábitos de trabalho... Trabalhem menos, porra! 27 horas A conhecida semana inglesa de trabalho parece se transformar rapidamente em miragem para parcela crescente dos ocupados. Pesquisa realizada sobre condições de vida e trabalho no Reino Unido revela que, nas atividades de serviços, o antigo descanso semanal de 48 horas foi reduzido na prática para somente 27 horas. Há fortes indícios de que a jornada de trabalho deixa de começar na manhã de segunda-feira e se encerrar na tarde de sexta para, cada vez mais, se iniciar no meio da tarde de domingo e prolongar-se até o início da tarde do sábado. Assim, o tempo do descanso semanal é diminuído em 21 horas (43,7%), conforme estudos sobre hábitos do trabalho de 4.000 empregados de 16 a 60 anos de idade no setor de serviços britânico. A cada dez ocupados, seis efetuam tarefas relacionadas ao trabalho heterônomo (pela sobrevivência) no final de semana. Entre as principais ativid...

O pastor alemão da minha rua

Hoje ao sair de casa vi um menino que visivelmente estava com medo de um cachorro que anda solto pela vizinhança. Ato contínuo, me vi no rapaz, como numa viagem pelo tempo, rumo a uns 17 ou 18 anos atrás. Até uns 14 anos de idade, quase tudo que eu fazia me obrigava a passar a pé por uma das três ruas que cercavam minha casa, seja pra ir à escola, jogar bola ou dar um pulo na casa de algum amigo: a primeira opção era uma senhora subidona, a da rua Dias Vieira, caminho que eu preguiçosamente rejeitava; a segunda era uma subida mais moderada e curta, na minha própria rua; a terceira era a opção mais longa (outra subida), pela qual eu via o movimento da rua principal da Vila Sônia, a Silvio Dante Bertachi. Pois bem: nos dois caminhos favoritos em geral eu me deparava com cachorros. Na subida da minha rua, o vira-lata era até merecedor de respeito: um pastor alemão que vivia solto em um quintalzão sem grades, dono de um focinho apurado, que devia captar a quilômetros a aproximação de moleq...

Chico Buarque e José Rodrigues da Graça Melo

Alguns entendidos dizem que não existiria Chico Buarque sem Noel Rosa e Tom Jobim. Concordo com ressalvas, mas é sempre um tema pra uma boa prosa sobre música. Dito isso e lembrando um velho problema de lógica, digo que não existiria o artista criador de Carolina, Januária, Cecília, Angélica e outras famosas sem a existência de José Rodrigues da Graça Melo. Quem? Ora, o grande José Rodrigues da Graça Melo, médico de profissão, mas talvez um tipo de anjo enviado pelos deuses tocadores de harpa. OK, até três dias atrás eu nunca ouvira falar a respeito desse sujeito. Mas trata-se de um cara BEM importante. Seu nome está nas páginas iniciais da biografia de Tom Jobim, escrita por Sergio Cabral. Em 25 de janeiro de 1927 um dos autores de “Desafinado” veio ao mundo pelas mãos de José Rodrigues da Graça Melo. Um punhado de anos pra trás, em 11 de dezembro de 1910, ele fazia o mesmo com o futuro Poeta da Vila. “Não há qualquer outro nome na medicina que tenha contribuído tanto para a nossa mús...

O cinema de Bananal

Eis que após 26 anos de clausura, a cidade de Bananal, no interiorzão de SP, tem de novo um cinema à disposição de sua população. Passei a vida inteira ouvindo minha mãe e algumas tias apontando, em tom saudoso, que bem ali, no coração da rua principal do centrinho de Bananal, ficava o cinema. Neste feriado pude ver o espaço reformado e pronto para receber, com dignidade, a pequena população da cidade, ávida por cultura. O cinema foi reaberto no final de semana passado. A estrutura é simples: um grande auditório, com mais ou menos 200 cadeiras. No alto e ao fundo, um projetor. À frente, uma grande parede branca e um palco, o que permite aproveitar o espaço para apresentações teatrais também. Nenhum segredo, nenhuma inovação. Apenas um pouco de iniciativa da Prefeitura. No sábado, no horário nobre das 21h, não houve sessão, mas sim um espetáculo de dança chamado "Senha", que vem rodando o interior de São Paulo, às custas do governo estadual. No domingo, um filme infantil à tar...