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Mostrando postagens com o rótulo música

Três do Chico

Fuçando em e-mails antigos, achei os textos do blog anterior, encerrado em 2006. Peguei três deles – todos com alguma menção ao Chico Buarque, já que fazia tempo que não publicava nada sobre ele aqui – e joguei num post só: 2004 - Entrevista ao “La Vanguardia” O compositor resume o atual momento de sua vida: "Tenho 60 anos. Nasci e vivo no Rio de Janeiro. Estou separado e tenho três filhas, duas netas e meia e um neto: Chico. Sou um democrata que ainda crê na possibilidade de um socialismo democrático. Já vivemos quase duas décadas de idiotice globalizada. Sou ateu. Publico 'Budapeste' pelas editoras Salamandra em castelhano e La Magrana em catalão". LV - Sempre fugiu da fama? Chico - Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento de meu trabalho. Mas depois vem a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que cuida de se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos não era assim. LV - Como era? Chico - Veja, estávamos todos bêbados em...

A grandeza de Nelson Ned

Um belo dia, em um programa de televisão (“Conexão Internacional”, da extinta Rede Manchete), Chico Buarque enviou uma pergunta para Gabriel García Márquez: “As suas preferências musicais causam espanto em muita gente, principalmente aqui no Brasil. Eu queria saber se os seus romances fossem música, seriam samba, tango, som cubano ou um bolero vagabundo mesmo?”. Com elegância e sem vergonha de suas preferências, o escritor colombiano respondeu: “Eu gostaria que fossem um bolero composto por você e cantado pelo Nelson Ned”. Pela terceira vez (haverá ainda um quarto texto), recorro a “Eu não sou cachorro, não”, livro de Paulo César Araújo para relatar causos de nossa cultura popular. Pouco antes da resposta de Gabo a Chico, fico sabendo ainda que o Nobel de Literatura escreveu “Crônica de uma morte anunciada” ao som de canções como “Tudo passará”, do grande pequeno cantor brasileiro, cuja obra em geral é relegada aos rótulos de “cafona” e “brega” de nossa discografia. Nelson Ned é figura...

Caetano, Gil e as lágrimas de Luiz Gonzaga

O Rei do Baião teve seu auge de popularidade ao longo das décadas de 40 e 50. Gonzagão entrou nos 1960’s com um tipo de fama mais concentrada no Nordeste e em alguns bairros nordestinos de São Paulo e Rio de Janeiro. A imprensa, que antes o reverenciava, simplesmente deixou de citá-lo e de entrevistá-lo – por conseguinte, a classe média também se esqueceu do cantador. Juscelino saiu, surgiu a bossa nova, veio Jânio e Jango, vieram os militares, o Cinema Novo e uma turma da pesada no cenário musical. No meio desses novos artistas, dois deles resolveram dar crédito a uma de suas principais influências. “Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que, graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocas dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, e sobretudo da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestino...

Caetano foi ao Jô

Minha irmã deu um toque (ela acompanhou a gravação) e só na manhã seguinte fui conferir: Caetano Veloso foi ao Programa do Jô nesta terça-feira (2). Pelo que vi em outro vídeo, já foram mais de oito entrevistas ao talk show, entre participações no SBT e na Globo. Desta vez, Caetano foi ora simpático e ora convencido, cantou, tocou violão, fez todos rirem, rebateu umas provocações bobas do Jô... enfim, mandou bem! Caetano está certíssimo ao participar de inúmeros programas, seja para lançar seus discos novos ou simplesmente para exercitar seu lado polemista. Sua mera presença remete aos mais de 40 anos de carreira que ele tem a apresentar aos mais moleques, cada vez menos interessados pelos “clássicos”. Chico Buarque deveria levar isso mais em conta. É bobeira cair na velha discussão sobre quem é melhor, mas nesse ponto Caetano se mostra muito mais desenvolto, mesmo quando toca “Alegria, alegria” e “Sampa” meio a contragosto, a pedido de Jô. Seria tão trágico cantarolar “Carolina”, “Olé...

I Was Born Ten Thousand Years Ago

E eis que de repente leio o seguinte parágrafo hoje no ônibus, na biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais: “Em dezembro de 1976 a Philips colocou nas ruas o quinto LP de Paulo com Raul, Há Dez Mil Anos Atrás [...]. A canção que dava nome ao álbum tinha duas peculiaridades: uma redundância no título e o fato de ser a tradução adaptada de I Was Born Ten Thousand Years Ago , conhecida canção tradicional americana de domínio público que tinha várias versões, a mais famosa delas gravada por Elvis Presley quatro anos antes”. Foram longos minutos até chegar ao trabalho e procurar no YouTube a versão original da música. E bateu uma certa sensação de ignorância por gostar de ambos (Elvis e Raul) e não saber que a longa letra é uma adaptação/tradução/homenagem. Sem mais delongas, seguem abaixo o vídeo e a letra original, com a ressalva de que há mais de uma versão para I Was Born Ten Thousand Years Ago : I WAS BORN ABOUT TEN THOUSAND YEARS AGO (Traditional - Adapted by Elvis Presl...

Ôôôô... listen to the music

Na segunda semana em Vancouver, um outro brasileiro, o Vinny, um cara que já havia morado nos Estados Unidos e tinha um nível de inglês bem melhor do que o meu, explicou o processo de aprendizado de outro idioma de uma forma que nunca mais saiu de minha cabeça. Ele dizia que era preciso "pegar a música" do idioma, seja das pessoas nativas do país ou mesmo dos estrangeiros que já são fluentes. E não importava quanto tempo alguém já tivesse estudado essa outra língua: ao chegar em outro país, tudo só transcorreria bem quando a tal música fosse devidamente captada. Depois de alguns meses por lá, vi que ele estava realmente certo. E comprovei isso mais uma vez em recente visita a trabalho à "Beneçuela". A impressão é a de que cada país hispanohablante tem uma "música" diferente, que exige uma adaptação que pode ser mais demorada ou menos demorada. Ainda na América do Norte, eu pensava que a "música" do Vinny tinha mais a ver com sotaques. Por lá, vi ...

Gênio deprimido

Sexta-feira, Livraria Cultura da avenida Paulista. Show curtinho do Guinga, para umas 50 pessoas. Em dado momento, uma senhorinha (sem trocadilhos musicais) pede pra ele cantar "Você, você", parceria com Chico Buarque gravada por Monica Salmaso. Guinga responde que não costuma cantar essa música, e que naquela tarde seria ainda mais difícil pelo fato de sua voz ter sido afetada por um recente problema de depressão. Após o show, pouco antes da tradicional rodinha de autógrafos e sessão de fotos, havia um burburinho sobre o problema do artista. Um dos espectadores sussurrou que era resquício do fim do casamento. Sigo na dúvida, mas seu abatimento era visível. Enquanto fiquei por lá, a única menção à doença partiu do próprio Guinga, após ser abraçado por uma jovem fã. "Muito obrigado. É esse tipo de coisa que preciso ouvir ultimamente", disse, após a moça agradecê-lo por existir e por compor tão belas canções. Apesar do problema na voz (de fato em alguns momentos sua h...

Flor da idade

Faz uns três dias que ouço de forma insistente a mesma música. E quero ouvir mais vezes. Talvez escrevendo sobre ela isso passe. Nunca fui muito fã de Drummond e continuo não sendo, apesar de, obviamente, reconhecê-lo como um dos maiores poetas da nossa língua. É questão de gosto mesmo, estilo, talvez ignorância, sei lá... Fico mais com João Cabral e Vinícius. As frases "enrolatórias" (ou o chamado nariz-de-cera jornalístico) antecedem, mais uma vez, um texto sobre Chico, o Buarque de Hollanda. Explico mais abaixo: Semana retrasada fui rever o show da Mônica Salmaso, a respeito do qual já escrevi por aqui no ano passado. Muito bom de novo (talvez até melhor, mas não é sobre isso o texto) e com uma novidade: além das 14 músicas do disco sobre a obra do Chico, ela emendou também "Flor da idade", composta em 1973 e, até onde eu saiba, só registrada no show dele com a Bethânia, de 1975. O que sempre chama a atenção de quem ouve a música é a óbvia homenagem, referência o...

“Descobrindo” Tim Maia

É difícil para alguém nascido nos anos 80 ter noção exata do quão famoso e importante foi Tim Maia, especialmente nos anos 70. Sempre tive grande simpatia pelo seu estilo bonachão e contestatório, bem como por grande parte de seus inúmeros hits. Mas admito aqui minha ignorância sobre alguns aspectos bem relevantes da vida e obra do “preto, gordo e cafajeste”, com destaque para seu vasto conhecimento musical, colocado em evidência inúmeras vezes por Nelson Motta em seu mais recente livro, todo dedicado ao cantor. Em “Vale tudo – O som e a fúria de Tim Maia”, assim como em “Noites tropicais”, Nelson Motta desperta um bocado de inveja no leitor que gosta de música e se interessa pela cena cultural brasileira. Nos dois casos, sua narração é privilegiada pelo fato de ter sido personagem e testemunha de muitas das histórias narradas – e também por conseguir transmitir aos mais leigos por que Fulano é um grande arranjador, Sicrano é um exímio violonista e Beltrano deixa muito a desejar. Tim M...