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Tres meses sem celular

Ha exatos tres meses Damasceno-Pai me deixava no aeroporto e, pouco antes do longo abraco que dei nele, deixei no carro meu telefone celular. Quando cheguei em Vancouver fiquei tentado a comprar algum aparelho baratinho para falar com os novos amigos no Canada, mas o tempo foi passando, passando... e nao comprei. Foi uma das melhores escolhas que fiz em terras canadenses. Ao voltar para o Brasil pensarei 40 vezes antes de reabilitar minha linha. Conheco poucas pessoas que abrem mao de um aparelho, mesmo que velhinho - e sempre achei uma postura meio boba nao se valer de uma tecnologia tao bacana. Mas agora dou o braco a torcer a caras como meu ex-chefe. Eh realmente muito bom nao ser achado em horas inoportunas ou mesmo ter que ficar preocupado com o toque ou o vibracall no cinema, na sala de aula ou durante uma soneca.

Corners

Durante o primeiro mes em Pender uma palavra me aterrorizou constantemente: corner. Tanto no trabalho como no meu principal momento de lazer na ilha, foram inumeras as decepcoes causadas por esse maldito substantivo. Explico: No trabalho, a lamuria era sentida toda vez em que sobrava pra mim a divertida tarefa de arrumar camas. Quase todos os quartos do hotel tem umas senhoras King Size, que precisam de uma tecnica toda cheia de frescuras pra ficarem prontas. Lencol daqui, travesseiros dali, cobertores embaixo de tal lencol etc etc etc. E, por fim, pra ficar bonito, os dois corners (ou cantos) da cama precisam de um jeitinho especial para os queridos hospedes. Por um mes, era simplesmente impossivel fazer bem esses tais corners. Eu sempre acabava pedindo uma ajuda pra alguma das mocas. Ate que o japa Tatsuhiro mostrou a mais moderna e eficiente tecnica samurai para finalizar as camas. Hoje da ate vergonha ver como era impossivel fazer algo tao elementar. O outro corner eh muito mais po...

Caronas

Pender Island nao tem transporte publico. Quem quer ir ao banco ou comprar umas cervejas tem algumas opcoes: caminhar, ligar para a van do hotel ou pedir carona. A principio, a ideia de pegar caronas nao me agradava muito. Mas, depois de algumas semanas aqui, da pra perceber que tal pratica realmente eh algo corriqueiro na ilha. Algo bacana eh que algumas regras tem que ser seguidas na ilha, tanto pra quem tenta a carona quanto para os que aceitam caroneiros. A placa ai do lado existe em varios pontos da ilha. E, de fato, a galera respeira pra caramba...

Abba e o touro

Em Vancouver acontecia sempre de os gringos perguntarem meu nome mais de uma vez, pois "Fernando" nao era algo comum a seus ouvidos. Ha quase duas semanas em Pender Island, convivendo direto com os canadenses que moram por aqui, ja perdi a conta de quantas vezes recebi sorrisos carregados de nostalgia ao me apresentar a diversos deles. Na verdade nao perdi a conta. Ate hoje foram seis comentarios engracados a respeito do meu nome. Quatro lembrando de "Fernando", do Abba; dois se referindo ao desenho classicao da Disney do touro Ferdinando. Todos eles vindo de pessoas mais velhas, ja grisalhas, exceto de um rapaz chamado Anthony que gosta de musicas antigas e diz se lembrar de seus pais ouvindo o grupo sueco. Uma das senhoras outro dia passou o dia inteiro trabalhando perto de mim. Bastava me ver pra ela comecar com "Can you hear the drums Fernando?". Ja esse cara que gosta de musicas antigas nao me cumprimenta mais com os tradicionais "How are you?...

Vanilla ice cream

Esta decidido: sempre que eu ficar em qualquer hotel, pousada ou algo equivalente, a partir de hoje, farei questao de deixar algum tipo de "presente" para os funcionarios responsaveis pela limpeza e organizacao do estabelecimento. Explico: comecei a trabalhar na semana passada num hotel BEM suntuoso em Pender Island, ilhota localizada a duas horas de Vancouver. Uma das funcoes dos "room attendants" eh dar uma geral nos quartos, chales e "villas". Pois bem. No ultimo sabado, enquanto eu terminava de arrumar uma das camas, ouco a simpatica Claire me chamar: "Fernando, it's ice cream break. Camon!". Nao entendi o que ela queria dizer e continuei fazendo meu trabalho. Depois de alguns minutos, dou uma passada pela cozinha e vejo os outros room attendants devorando um potao de sorvete de creme, deixado no congelador pelo ultimo hospede. Dividir esse sorvete com o pessoal que trabalha no hotel foi seguramente o momento mais feliz da primeira semana...

O sorriso da equatoriana e a corrida de biga

Duas coisas curiosas. E rapidas: - Domingo passado esqueci completamente do jogo do Brasil contra o Equador. Esquecimento proposital, pela falta de interesse em acompanhar os jogos da selecao nos ultimos tempos. Mas eis que na segunda-feira tudo mudou. Na escola, a primeira pessoa que veio me cumprimentar foi a Susana, do Equador. Apesar de a gente se falar pouco no dia a dia, ela chegou com um sorriso sarcastico, perguntando onde estavam os pentacampeoes do mundo, como se fosse uma corintiana chata depois de um classico. Nunca fui de me importar muito com tiracoes de sarro futebolisticas, mas o sorrisinho dela me deixou puto da vida. A ponto de na quarta-feira ter feito questao de acompanhar o jogo contra o Peru. E mais: torcendo e vibrando sozinho a cada gol, como se fosse uma partida do Tricolor. - A primeira lembranca que tenho de ver Damasceno-Pai emocionado me remete a "Ben Hur". Eu era bem moleque e estava assistindo com ele ao filme estrelado pelo falecido Charlton He...

Um mês em Raincouver, Chanadá

- Você percebe que esta longe de casa quando passa em frente a uma agencia de turismo e vê passagens para Tóquio por 600 dólares e para o Rio de Janeiro por 950. - A bela geografia da cidade tem evitado dias mal humorados. Mas em algumas ocasiões é inevitável se deixar levar pelas reclamações engraçadas dos canadenses e dos forasteiros. Quem é de fora reclama da chuva (Raincouver); quem eh daqui reclama da gigantesca e cada vez maior colônia chinesa (Chanadá). Chineses e chuva são dois fatores constantes na cidade, mas em alguns dias eles passam completamente despercebidos. - Após quatro semanas lavando as mãos em torneiras com água quente e gelada, ainda me vejo apanhando com freqüência dos jatos que ora quase me congelam, ora me causam pequenas queimaduras (já foram três, sempre na mão direita). - A necessidade por feijão já atingiu limites lamentáveis. De amanha não passa: me renderei ao Samba, o restaurante brasileiro da cidade. - Após quatro semanas, quem diria, já não é nenhum...