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Antonio Cândido – uma entrevista imperdível

Separo aqui alguns trechos sensacionais de uma entrevista publicada no “Brasil de Fato”. Como disse um amigo próximo ao lê-la: “Finalmente uma coisa boa nesse jornal de m...”.

Polêmicas à parte, duas frases ao longo do texto merecem destaque. Aliás, assino embaixo de ambas, sem pestanejar muito:

“Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas”.

“É melhor ser fascista do que não ter ideologia”.

Sei que alguns estudantes de Letras lerão estas linhas, e por pura incompetência prefiro não escrever nada sobre Candido aqui. Deixo apenas meu respeito absoluto por sua obra e copio abaixo os trechos que me pareceram mais interessantes de sua lúcida entrevista (que pode ser lida na íntegra aqui):

“O socialismo só não deu certo na Rússia”.

“O socialismo deu certo onde não foi ao poder”.

“A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria…”.

“[...] o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. [...] Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais”.

“O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na ‘Ideologia Alemã’: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue”.

“Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção”.

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